Na abertura da temporada 2025-2026, o árbitro da CFJJB Wilfried Sam lança seu podcast On the Road. No primeiro episódio, de mais de duas horas, ele recebe Kenji e Mathias Jardin para uma conversa sem filtro: seleção francesa, crescimento do JJB na França, debate entre clube associativo e academia privada, e projeções realistas para o futuro. Um verdadeiro mergulho nos bastidores, no momento em que o JJB francês vive um crescimento espetacular.
Um novo olhar sobre o JJB francês
Wilfried Sam não é um desconhecido na comunidade. Árbitro experiente da CFJJB, ele criou o On the Road como um espaço de troca e reflexão. Seu lema: “uma mentalidade, uma filosofia” para acompanhar a evolução dos praticantes, misturando técnica, tática e vivência de tatame.

Para o episódio inaugural, ele reúne dois convidados de peso. Kenji Sette, ex-competidor e professor na BLR, também conhecido por arbitrar eventos IBJJF do mais alto nível. Ao lado dele, Mathias Jardin: comentarista, fundador do BJJ Canapé, professor na Infinity e, sobretudo, treinador da seleção francesa da CFJJB com Baptiste Landais. Duas visões complementares que oferecem uma leitura lúcida do desenvolvimento francês.


A seleção revelada: juventude, performance e realismo orçamentário
A grande novidade deste podcast é a transparência sobre os critérios de seleção. Mathias apresenta uma linha clara: “É um projeto de longo prazo, construído sobre a juventude.”
Os três pilares da seleção
- Juventude em primeiro lugar: prioridade aos praticantes formados desde a infância. Objetivo: chegar à faixa-preta já com 4 a 5 anos de seleção no currículo.
- Potencial de performance: “Se você já não vence na marrom, não vai vencer na preta.” Resultados internacionais valem mais que títulos nacionais isolados.
- Profissionalismo: atrasos, falta de seriedade ou comportamentos inadequados eliminam candidatos, por mais talentosos que sejam.
Quem ficou de fora… e por quê?
Nos bastidores, vários atletas promissores não foram selecionados. Motivo principal: falta de resultados IBJJF internacionais, apesar de belos títulos nacionais. Exemplo citado por Mathias: um competidor adulto campeão na França, mas sem impacto no Europeu ou no Mundial. Outro motivo frequente: o comportamento. Dois jovens do mesmo clube foram eliminados após um atraso de 45 minutos nas seletivas.
Um orçamento limitado, mas estruturante
Sem subsídios do Estado: a seleção funciona graças à CFJJB e ao patrocinador Kingz. Inscrições pagas, equipamento fornecido, às vezes até contratos mensais de patrocínio: um passo real rumo à profissionalização. Mas, com orçamento apertado, as escolhas são duras. “Se tivéssemos 200.000 € por ano, levaríamos 15 mulheres e 15 homens”, destaca Mathias.
Quanto custa um atleta da seleção francesa?
Mathias dá uma ordem de grandeza: 10.000 a 15.000 € por atleta por ano. Isso inclui inscrições, viagens, hospedagem e equipamento. Para comparar, um judoca da seleção francesa custa entre 100.000 e 150.000 €, graças aos subsídios públicos. O JJB francês funciona sem essas ajudas, apoiado na confederação e no patrocínio da Kingz.
Uma seleção 2025 entre confirmações e surpresas
No feminino
- Noémie GLUCK e Chloé HEYRAUD (confirmadas)
- Janel MARINE, 15 anos, prodígio da Team CDK, capaz de vencer adultas campeãs
No masculino
- Retornos: Léon LARMAN (cirurgia no quadril), Freddy LELE TALLA (questão de patrocínio resolvida)
- Novidades: Nicolas SCHWINNINGER (campeão mundial 2024, integrado após evolução constante), Henrique SOARES (nível impressionante, baseado em Portugal)
- Confirmados: Youness BENNOUALI, Ibrahim REGNIER e Mohamed REGNIER (Mohamed, vice-campeão mundial na azul), Virgile GRANDJEAN, Lucas GAFFET (17 anos, 3º no Europeu)
- Jovens talentos: Noah PERNOT, Keylian PLANQUE, Tristan Bourly (15 anos)
Quem pode ser campeão mundial em 5 anos?
Os olhares se voltam para alguns nomes:
- Nicolas SCHWINNINGER: já campeão mundial na faixa colorida, ele encarna a progressão constante.
- Tristan BOURLY: 15 anos, descrito como “estratosférico”, pode marcar sua geração.
- Mohamed REGNIER: vice-campeão mundial na azul, um candidato sério se a evolução continuar.
Nenhuma garantia, mas uma certeza: a primeira medalha mundial francesa na faixa-preta virá dessa nova geração.
Crianças que superam os adultos
Uma constatação marcante: alguns jovens de 14-15 anos já dominam adultos campeões da França. A diferença vem da experiência acumulada: “Um adulto com 5 anos de treino não fala a mesma língua que um garoto que treina há 11”, resume Mathias. A tendência é clara: em dez anos, o alto nível será inacessível sem um começo precoce.
O JJB francês entre euforia e desafios
Um crescimento fulgurante
Com 25 a 30 % de crescimento anual em filiações, o JJB conquista o público. O MMA serviu de trampolim, mas também figuras em ascensão como Freddy, que virou referência entre os jovens pelo TikTok. O JJB atrai porque continua acessível em qualquer idade.
As tensões da popularidade
Kenji, porém, se preocupa com uma perda dos valores marciais: “O mais difícil é educar marcialmente.” Alguns alunos adotam uma mentalidade de “clientes” mais do que de praticantes, uma mudança cultural que os professores precisam administrar.
Associativo vs privado: o debate que cresce
O podcast escancara uma divisão real. O modelo associativo, dependente das prefeituras e de horários limitados, mostra seus limites para o alto nível. Na outra ponta, as estruturas privadas (Infinity, Gracie Barra…) trazem flexibilidade, volume de treino e profissionalização.
Kenji é direto: “O alto nível não pode existir com as restrições do modelo associativo.” Um contraponto interessante a essa posição: a trajetória da Z-Team, clube associativo eleito melhor clube da França, contada no episódio do On the Road dedicado à Z-Team.
França vs Estados Unidos / Brasil
Estados Unidos: uns quinze campeões mundiais por ano, academias privadas poderosas, um sistema educacional voltado ao esporte-estudo.
Brasil: sempre um celeiro, com academias modernas e profissionais (Alliance, Atos, Gracie Barra).
França: crescimento rápido (+25 % de federados por ano), mas ainda zero título mundial na faixa-preta. A vantagem americana é estimada em 10–15 anos.
Um método de treino técnico-tático
Mathias detalha o método da seleção: nada de catálogo de técnicas, mas foco em situações concretas e no regulamento. Saídas de área, micro-situações, gestão estratégica: tudo é preparado para otimizar a competição. A Infinity aplica a mesma lógica com seus “drills dirigidos”, em que os competidores trabalham sequências específicas.
Como entrar na seleção francesa de JJB?
- Começar cedo: os selecionados costumam ter 10 anos de treino já na adolescência.
- Brilhar no cenário internacional: mirar pódios no Europeu e no Mundial IBJJF.
- Disciplina: pontualidade, estilo de vida, atitude profissional.
- Trabalhar o técnico-tático: conhecer o regulamento IBJJF, repetir situações específicas.
Resumindo: a seleção francesa de JJB não é só questão de talento, mas sobretudo de seriedade e constância.
Meta de campeões mundiais: utopia ou realidade?
A pergunta final é feita: “Em 5 a 10 anos, uma dezena de campeões mundiais franceses?” A resposta é seca: utopia. “Uma dezena, impossível. Só o primeiro já seria enorme”, corta Mathias. Kenji confirma: “Nem sei se teremos o primeiro na faixa-preta em 5 a 10 anos.”
Homenagem a Oliver Geddes
O episódio termina com uma homenagem a Oliver Geddes, figura inglesa do JJB europeu, que faleceu recentemente vítima de um câncer. Compartilhamos nossa tristeza, nosso respeito e nossas condolências. Árbitro internacional, competidor premiado e pioneiro na Inglaterra, ele marcou a história e a memória de toda uma geração. Um lembrete de que, apesar dos debates, o JJB continua sendo, antes de tudo, uma comunidade humana.

FAQ: a seleção francesa de JJB
Quem seleciona a seleção francesa de JJB?
A seleção é feita por Mathias Jardin, com o apoio de Baptiste Landais, sob a CFJJB. Três critérios guiam as escolhas: a juventude (prioridade a quem treina desde a infância), o potencial de performance internacional e o profissionalismo dos atletas no dia a dia.
Quanto custa um atleta da seleção francesa de JJB?
Segundo Mathias Jardin no podcast, um atleta custa entre 10.000 e 15.000 € por ano. Esse orçamento cobre inscrições, viagens, hospedagem e equipamento. É financiado pela CFJJB e pelo patrocinador Kingz, sem subsídios públicos, ao contrário do judô, onde um atleta da seleção custa de 100.000 a 150.000 € por ano.
Como entrar na seleção francesa de JJB?
O perfil buscado combina quatro elementos: começar cedo, obter resultados internacionais (pódios no Europeu e no Mundial IBJJF), mostrar disciplina impecável e dominar o trabalho técnico-tático ligado ao regulamento. Títulos nacionais sozinhos não bastam.
Balanço: no início da temporada 2025, o JJB francês está em um momento decisivo. Crescimento fulgurante, seleção estruturada, tensões entre modelo associativo e privado: o podcast On the Road de Wilfried Sam desponta como nova referência para acompanhar essas mudanças. Um programa imperdível para entender para onde vai o jiu-jitsu francês, e o BJJ-Rules estará lá para cobrir tudo!
O primeiro episódio (em francês) já está disponível nas plataformas de podcast.
Kenji Sette · Mathias Jardin
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