Dois títulos de melhor clube da França na mesma temporada. Uma dobradinha inédita entre a CFJJB e a France Judo. E, acima de tudo, quase vinte anos de história no mesmo tatame de Boulogne, perto de Paris. Neste novo episódio do On the Road, Wilfried Sam recebe três pilares da Z-Team. Eles contam o que os troféus não mostram: a cultura de um clube onde, como eles gostam de repetir, “o tatame não mente”.
Para este episódio, Boueyley Wilfried Sam, criador do podcast On the Road, reúne três rostos da Z-Team. Primeiro, Mehdi Allaoui, treinador do clube. Depois, Momen Ferrah, competidor e empreendedor. Por fim, Ilyes Barafane, competidor de longa data. Os três se conhecem desde o fim dos anos 2000. O resultado: mais de duas horas de conversa entre companheiros de equipe, e um mergulho raro na fábrica do clube mais premiado do momento na França. A Z-Team conta sua origem, seu famoso “tatame forte” e sua temporada histórica. E, principalmente, nenhum assunto delicado fica de fora: vaquinhas online, dinheiro no JJB, futuro do alto nível francês.
Observação: o episódio é em francês. Este artigo resume o conteúdo para a comunidade internacional do JJB.
A Z-Team, uma instituição do JJB francês
Peça para eles resumirem a Z-Team em uma frase e a resposta vem na hora: “é uma instituição”. O clube nasceu em 2002 em Boulogne-Billancourt, como associação sem fins lucrativos. Desde então, formou quatro gerações de faixas-pretas. Segundo seus membros, boa parte do jiu-jitsu francês já passou por lá em algum momento. Mesmo assim, o modelo continua fiel às origens. As mensalidades seguem acessíveis: 250 € para estudantes, cerca de 390 € para adultos, segundo o episódio. Além disso, a maior parte do trabalho é voluntária. O objetivo declarado não é ganhar dinheiro, mas fazer o clube crescer e apoiar seus competidores.
É esse paradoxo que torna o episódio tão interessante. De fato, um clube associativo onde quase todo mundo trabalha fora domina o circuito nacional. E faz isso contra academias privadas e atletas em tempo integral. Como? A resposta está em uma cultura. E essa cultura tem uma história.
Do começo à geração dos “Rookies”
Os três convidados começaram entre 2007 e 2009. Naquela época, o cenário francês não tinha nada a ver com o de hoje. Havia um punhado de clubes na região de Paris e duas ou três competições por ano. Além disso, não existia circuito estruturado nem redes sociais. Momen Ferrah descobriu a luta de solo no colégio, finalizado duas vezes seguidas por um colega de classe. Picado no orgulho, foi pesquisar e logo entrou no clube de Boulogne. Enquanto isso, Ilyes Barafane e Mehdi Allaoui se conheceram quase na mesma semana, em 2009, em um clube de Paris. Depois, entraram na Z-Team como faixas-azuis.
Lá, eles formaram um núcleo de seis jovens. Os veteranos do clube os apelidaram de “Rookies”: a geração que estava subindo. Amigos na vida, viraram rivais ferozes no treino. Assim, eles contam batalhas internas de dez a quinze minutos, sem limite, até a finalização. O clube inteiro se juntava em volta do tatame para gritar. “Tinha o treino físico, e depois tinha o treino mental”, resume um deles. Em outras palavras, perder no treino significava virar alvo de zoação até o vestiário. Essa dureza assumida é apresentada como a base da solidez deles em competição. Afinal, depois de um sparring da Z-Team, nenhum campeonato assusta mais.
Esse núcleo emendou depois campanhas internacionais, muitas vezes com dinheiro do próprio bolso. Vieram pódios no Pan, no Europeu e no World Pro nas faixas coloridas. Tudo isso trabalhando fora. De fato, o episódio lembra que, naquela época, ninguém no clube vivia do jiu-jitsu. Um era padeiro, outro montava sua primeira empresa. Os treinos, portanto, eram encaixados entre dois dias de trabalho.
“O tatame não mente”: o segredo do clube
Como um clube “recreativo” no papel consegue rivalizar com atletas em tempo integral? Nesse ponto, os três convidados concordam: a intensidade vale mais que o volume. Na época, eles treinavam quatro vezes por semana. Mas as sessões eram longas, densas, e o nível dos rolls diários era altíssimo. “Existe uma seleção natural”, reconhece Ilyes com um sorriso. Quem não aguenta a pressão do tatame vai embora. Os outros, ao contrário, puxam uns aos outros para cima.
Essa rivalidade interna funciona como preparação mental. Momen conta, por exemplo, que saía do escritório para treinar e voltava à noite para terminar o expediente. Impossível desligar: perder para os rivais do clube não era uma opção. Por fim, uma frase volta como mantra ao longo de todo o episódio: “o tatame não mente”. Troféus e redes sociais contam a história que quiserem. A verdade de um clube, porém, se mede quando você aparece para treinar lá.
Uma temporada histórica: a dobradinha da Z-Team
O coração do episódio é a temporada 2025-2026, a mais vitoriosa da história do clube segundo os convidados. O balanço impressiona. Primeiro, vitória no Condo Fight na abertura da temporada, uma competição por equipes de faixas-azuis. Depois, a Sky League, o circuito entre clubes disputado ao longo do ano. Em seguida, o Diamond Fight. E, acima de tudo, o título de melhor clube da França no campeonato francês da CFJJB, pelo segundo ano consecutivo. Esse título foi dobrado com o mesmo troféu no primeiro campeonato francês organizado pela France Judo. Por fim, a entrega dos troféus aconteceu no Institut du Judo, em Paris, diante de centenas de membros e clubes parceiros reunidos no tatame.
O Diamond Fight e sua regra polêmica
O episódio se demora no Diamond Fight, um formato por equipes fora do comum. Trata-se de um absoluto integral: sem categorias de peso, sem divisão por faixas. A Z-Team venceu a Infinity na primeira rodada (3 a 2, segundo os convidados), e depois dominou a Team CDK na final. O prêmio: um cheque de 4.000 €, redistribuído integralmente aos lutadores da equipe. O torneio também teve seu momento polêmico. De fato, um empate entre um faixa-marrom da Infinity e um faixa-branca da Z-Team foi decidido a favor da graduação inferior. Só que as duas equipes descobriram essa regra no próprio dia. Os convidados assumem o resultado, mas admitem uma coisa: no sentido inverso, provavelmente teriam reagido como os adversários. Em um formato tão novo, as regras vão se ajustar edição após edição.
Um campeonato francês em casa
Neste ano, o campeonato francês da CFJJB foi disputado a dez minutos a pé do clube. O clima mostrou isso. Os convidados descrevem finais disputadas sob os gritos de um bairro inteiro que veio apoiar os seus. Entre os destaques, uma final de faixa-roxa marcou a todos. Ela colocou frente a frente um jovem da Z-Team, faixa-roxa havia apenas três meses, e Virgile Grandjean, membro da seleção francesa. Uma luta aberta, saudada como um dos pontos altos do dia. Os convidados também destacam a atuação de Lucas Gaffet. Eles o descrevem como um competidor de lucidez tática rara, capaz de escolher a opção certa no caos de uma luta apertada. Para entender o caminho da faixa-branca até esse nível, confira nosso guia sobre o que significa cada faixa no jiu-jitsu.
Um modelo que investe nos competidores
Por trás dos resultados, o episódio detalha um mecanismo interno pouco conhecido. Na temporada anterior, o clube havia criado um ranking interno de pontos, com prêmios no fim do ano. Nesta temporada, a lógica evoluiu. Agora, seletivas internas definem quem representa o clube na Sky League. Além disso, os vencedores ganharam um “pacote” completo para disputar o Campeonato Europeu em Lisboa: passagem aérea e inscrição incluídas. Resultado: um dos selecionados voltou com pódio na faixa-azul adulto. A ideia é simples. Trata-se de ajudar os competidores antes da performance, em vez de recompensar depois.
Dá para viver de JJB na França? O grande debate
A polêmica das vaquinhas
Fiel ao espírito do podcast, Wilfried Sam leva os convidados para o terreno delicado: o dinheiro. O ponto de partida? A moda das vaquinhas online lançadas por competidores para financiar viagens. O veredito dos convidados é direto. Antes de pedir dinheiro aos outros, é preciso ter noção do próprio nível. “Fique forte em casa, vença na França, e o resto vem”, resume Momen, em essência. Segundo ele, patrocinadores e apoio do clube chegam naturalmente quando os resultados aparecem. Cada um é livre, eles esclarecem. Mas o recado é claro.
Três formas de viver do jiu-jitsu
Wilfried estrutura então o debate em três cenários. Primeiro caso: o atleta puro. A resposta é cheia de nuances. Na melhor das hipóteses, ele vive “no zero a zero”, somando premiações, bolsas, aulas particulares e patrocinadores. O status de atleta de alto nível na França abre, aliás, apoios regionais. Também é mais fácil aos 18 anos, com poucas despesas. Segundo caso: o professor e agente do ecossistema, entre aulas, seminários e conteúdo. Aí, a resposta é sim, principalmente a partir da faixa-preta.
Terceiro caso, enfim: o negócio paralelo, a marca ou a mídia 100 % JJB. É a aposta mais arriscada segundo eles, porque o mercado ainda é um nicho. Em compensação, esse nicho consome muito. O gasto anual de um praticante de JJB está muito acima do de outros esportes de tatame. Wilfried, cuja mídia On the Road apostou tudo no jiu-jitsu, vê aí uma questão de audiência e de paciência. De fato, a modalidade cresce em ritmo de dois dígitos na França. Segundo as projeções citadas no episódio, ela pode até passar de 150.000 federados em cinco anos.
Um trunfo de imagem inesperado
Uma passagem mais pessoal merece atenção. Momen conta que, por anos, escondeu o jiu-jitsu na vida profissional, com medo dos clichês ligados aos esportes de combate. Até que tudo virou durante uma captação de investimento. Um investidor o aconselhou, ao contrário, a destacar sua trajetória de competidor. Hoje, o jiu-jitsu é visto como uma arte marcial exigente, e não como briga. Virou até um trunfo de imagem no mundo dos negócios. Em resumo, uma mudança de olhar que diz muito sobre o lugar da modalidade na França.
E agora? Uma equipe pro e a formação da base
A Z-Team não pretende parar por aí. Sem revelar tudo, os convidados anunciam para a próxima temporada a criação de uma “equipe pro”, comandada por Mehdi Allaoui. Na prática, um grupo de competidores será apoiado financeira e esportivamente ao longo do ano, na linha dos pacotes de Lisboa. Além disso, o clube estuda estruturar a formação dos jovens. A constatação é simples: em breve, o altíssimo nível será inacessível para quem não começou criança. Com seu celeiro da região de Paris, sua história e suas “quatro gerações de faixas-pretas”, a Z-Team acredita ter todas as cartas na mão.
A palavra final fica com os convidados. E ela vale muito além do jiu-jitsu. Cerque-se de pessoas que compartilham seus objetivos. Se o seu ambiente não puxa você para cima, construa um. “Tem leão demais cercado de gente que não pensa como ele”, solta Mehdi.
FAQ: a Z-Team e este episódio do On the Road
O que é a Z-Team no jiu-jitsu brasileiro?
A Z-Team é um clube associativo de jiu-jitsu brasileiro fundado em 2002 em Boulogne-Billancourt, perto de Paris. Foi eleita melhor clube da França no campeonato da CFJJB por dois anos seguidos. Além disso, conquistou o mesmo título no primeiro campeonato francês organizado pela France Judo. O clube formou quatro gerações de faixas-pretas e mantém um modelo associativo com mensalidades acessíveis.
Quem são os convidados deste episódio do On the Road?
Wilfried Sam recebe três membros históricos da Z-Team: Mehdi Allaoui, treinador do clube, Momen Ferrah, competidor e empreendedor, e Ilyes Barafane, competidor. Os três se conhecem desde o fim dos anos 2000. Eles pertencem à geração apelidada de “Rookies” dentro do clube.
O que a Z-Team ganhou na temporada 2025-2026?
Segundo o balanço feito no episódio, a Z-Team venceu o Condo Fight, a Sky League e o Diamond Fight. Acima de tudo, conquistou o título de melhor clube da França no campeonato da CFJJB, pelo segundo ano consecutivo. Depois, dobrou com o mesmo título no primeiro campeonato francês organizado pela France Judo. Os troféus foram entregues no Institut du Judo, em Paris.
Dá para viver de jiu-jitsu brasileiro na França?
Segundo os convidados do episódio, um atleta puro consegue, na melhor das hipóteses, viver “no zero a zero”. Para isso, precisa somar premiações, bolsas de atleta de alto nível, aulas e patrocinadores. Viver do ensino (aulas, seminários, academia), em contrapartida, é realista, principalmente a partir da faixa-preta. Por fim, os negócios paralelos, como marcas e mídias, seguem sendo a aposta mais difícil, em um mercado de nicho, mas em forte crescimento.
Conclusão: o JJB francês contado pelo clube
Depois dos bastidores da seleção francesa e do debate institucional CFJJB / France Judo, o On the Road acrescenta uma peça essencial ao quebra-cabeça do jiu-jitsu francês: o clube. A história da Z-Team prova o ponto: uma estrutura associativa, tocada por voluntários, pode construir uma verdadeira cultura de performance. E até dominar o circuito nacional. Resta uma pergunta, que o episódio deixa em aberto. Esse modelo vai sobreviver à profissionalização acelerada da modalidade? A equipe pro anunciada para setembro trará um primeiro elemento de resposta. O BJJ-Rules vai acompanhar de perto.
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