Bia Mesquita: A Elegância Técnica do Jiu-Jitsu Feminino
Existem atletas que impõem sua dominância pela força bruta. Outras pelo ritmo agressivo constante que não dá um segundo de respiro pro adversário. E depois tem aquelas, como a Bia Mesquita, que dão a...

Existem atletas que impõem sua dominância pela força bruta. Outras pelo ritmo agressivo constante que não dá um segundo de respiro pro adversário. E depois tem aquelas, como a Bia Mesquita, que dão a impressão de que tudo flui naturalmente, que cada movimento acontece sem esforço aparente, como se o jiu-jitsu fosse delas desde sempre.
Table Of Content
- Como a Bia Mesquita começou no jiu-jitsu?
- Como a Gracie Humaitá e Letícia Ribeiro formaram a Bia Mesquita?
- Quantos títulos mundiais a Bia Mesquita conquistou?
- Qual é o estilo de luta único da Bia Mesquita?
- Contra quem a Bia Mesquita travou suas maiores lutas?
- Qual legado a Bia Mesquita deixa para o jiu-jitsu feminino?
- Como a Bia Mesquita migrou para o MMA e o UFC?
- FAQ: tudo sobre a Bia Mesquita
- Conclusão: uma elegância que marcou a história do jiu-jitsu
A Bia Mesquita pertence a essa categoria rara.
Quando a gente assiste suas lutas de jiu-jitsu brasileiro, sente imediatamente aquela sensação especial de que tudo está “limpo” na execução dela. Não tem movimento forçado, nem tensão visível no rosto, nem pânico nos momentos difíceis. Pelo contrário, vemos decisões certas tomadas no momento certo, com uma confiança tranquila que contrasta com a intensidade febril do altíssimo nível. É essa mistura única de calma aparente, precisão milimétrica e fluidez natural que fez dela uma das maiores técnicas da história do jiu-jitsu feminino.

Dez títulos mundiais IBJJF na faixa-preta, um recorde histórico inscrito no Guinness World Records.
Uma dominância longa, regular, sem falhas reais.
E acima de tudo, um estilo que influenciou profundamente toda uma geração de praticantes.
Como a Bia Mesquita começou no jiu-jitsu?
A Bia Mesquita começou no jiu-jitsu brasileiro aos 5 anos, em 1996, junto com o irmão. Nascida em 7 de abril de 1991 no Rio de Janeiro, ela cresceu na cidade litorânea de Saquarema, onde treinava na academia Vento Sul com o professor Luis Fernando. Aos 10 anos, já tinha conquistado três títulos estaduais e o Campeonato Brasileiro Juvenil.
Um cenário simples, mas uma paixão imediata
Logo cedo, os pais dela se tornaram seus maiores apoiadores. Como ela mesma diria mais tarde: “Meus pais são as pessoas que mais me motivaram a continuar, principalmente no jiu-jitsu. Eles me empurram forte, acreditam em mim mais do que eu mesma às vezes.”
Em paralelo ao JJB, a jovem Bia experimentou várias modalidades: judô a partir dos 9 anos, natação e depois luta livre olímpica aos 15 (onde conquistou um título estadual juvenil). Entretanto, lesões recorrentes no joelho fizeram com que ela abandonasse o judô por volta dos 12 anos para se concentrar totalmente no jiu-jitsu.
Os primeiros sinais de uma futura técnica refinada
Desde cedo, uma característica distintiva apareceu na pequena Bia e a diferenciou dos colegas de treino: ela não queria só “fazer a técnica” como mostravam mecanicamente. Pelo contrário, queria entender a técnica em profundidade, em todos os detalhes.
Por que essa pegada funciona exatamente?
O que esse movimento provoca no adversário?
Como antecipar a reação seguinte?
O que acontece se o adversário resistir de outra forma?
Onde outras crianças treinavam no automático, repetindo mecanicamente as sequências mostradas pelo professor, ela já procurava a lógica profunda do movimento. De fato, queria entender os princípios fundamentais que fazem uma técnica funcionar ou falhar. Ainda não era a futura campeã mundial que dominaria sua modalidade por uma década inteira. No entanto, já era uma futura técnica obsessiva, movida por uma curiosidade permanente pelos detalhes que fazem a diferença entre um bom jiu-jitsu e um jiu-jitsu excelente.
Como a Gracie Humaitá e Letícia Ribeiro formaram a Bia Mesquita?
Descoberta pelo professor Luis Fernando, a Bia Mesquita entrou na equipe Gracie Humaitá em Tijuca, sob a direção da lendária Letícia Ribeiro. Por meio da sua linhagem (C. Gracie, Hélio Gracie, Royler Gracie, Vini Aieta, Letícia Ribeiro), ela passou a integrar um sistema de altíssimo nível que transformou seu talento natural em método estruturado e replicável.
Uma escola de excelência técnica para a Bia Mesquita
Para uma jovem atleta em plena construção, foi um momento decisivo. Pouco a pouco, ela passou de um ambiente local apaixonado a uma estrutura de alto nível, acostumada a formar campeãs mundiais. A Gracie Humaitá é um universo próprio, um sistema completo:
Rigor na organização diária.
Repetições infinitas dos fundamentos técnicos.
Trabalho obsessivo dos detalhes que fazem a diferença.
Densidade de nível extremamente alta no dia a dia.
Nesse ambiente, não se forma só competidoras que acumulam títulos em torneios. Se forja metodicamente técnicas completas, capazes de entender os princípios fundamentais do jiu-jitsu, adaptar seu jogo, e permanecer eficientes contra todos os perfis de adversárias. Por consequência, para a Bia Mesquita, esse foi exatamente o ambiente estruturado que ela precisava para se desenvolver plenamente e dar um salto decisivo.
Uma evolução técnica metódica
Sob a supervisão da Letícia Ribeiro, a Bia refinou seu jogo com paciência e método. Ela destrinchou os ângulos, lapidou suas pegadas, desenvolveu aquele controle de distância tão peculiar que se tornaria sua assinatura. Assim, sua guarda aberta se transformou etapa por etapa num terreno ofensivo temível, dominado por pouquíssimas mulheres da época nesse nível de sofisticação técnica.
Sua mentalidade no treino é clara e direta: “Quando vou treinar, minha mentalidade é: você melhora todos os dias. Não importam as circunstâncias. Principalmente nos camps antes dos torneios.” Essa mentalidade de progressão constante se tornou a base da sua futura dominância, tanto no kimono quanto no no-gi.

Ela recebeu a faixa-marrom em junho de 2009 das mãos da Letícia Ribeiro, no pódio do Mundial. Depois, conquistou a faixa-preta em março de 2011 no Pan Americano. Em 2012, ganhou seu primeiro título mundial IBJJF na faixa-preta. Esse resultado pareceu repentino para o grande público. Porém, para quem cruzava com ela todo dia no tatame, esse título parecia mais uma evidência. Para entender melhor a importância dessa graduação, dá uma olhada no nosso guia completo sobre o significado de cada faixa no jiu-jitsu.
Para muitos observadores externos, foi uma surpresa, para o pessoal da Gracie Humaitá, foi simplesmente uma confirmação lógica do que já sabiam.
Quantos títulos mundiais a Bia Mesquita conquistou?
A Bia Mesquita é dona do recorde histórico de 10 títulos mundiais IBJJF na faixa-preta, conquista oficialmente reconhecida pelo Guinness World Records. Ela ganhou oito títulos na categoria meio-leve (2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2018, 2019, 2021) e dois títulos no absoluto (2013 e 2014). Em 2022, foi introduzida ao IBJJF Hall of Fame.
Adversárias de elite, ano após ano
No coração dessa dominância, durante a década 2012-2021, a Bia Mesquita enfrentou as melhores atletas da sua geração. Notavelmente Mackenzie Dern, outra prodígio do jiu-jitsu feminino, Luiza Monteiro, atleta completa e perigosa em todos os setores do jogo, Bianca Basilio, explosiva e imprevisível, ou Nathiely de Jesus, ao mesmo tempo física e técnica. E claro, a inevitável Gabi Garcia, a própria encarnação da força bruta aplicada ao jiu-jitsu feminino.
Todo ano, o mesmo cenário se repete com regularidade impressionante.
A Bia volta para os campeonatos mundiais.
Ela chega às fases finais.
Ela mostra que seu jiu-jitsu atravessa as gerações, as modas passageiras e as novas tendências técnicas.
Uma constância excepcional no topo
Não é, portanto, um simples reinado efêmero, baseado num pico de forma momentâneo ou numa geração mais fraca de adversárias. Pelo contrário, trata-se de uma continuidade impressionante: uma presença constante no topo, que desafia os ciclos habituais do esporte de alto nível, onde as campeãs se sucedem rapidamente. Nesse aspecto, dá pra compará-la a outras figuras marcantes como o Marcus “Buchecha” Almeida e suas 13 coroas mundiais.

Sua força mental nos momentos difíceis é um elemento-chave dos seus sucessos repetidos. Ela resume sua filosofia de forma muito simples: “O que mais me ajuda é minha determinação. Nunca desistir, principalmente durante uma luta. Não dá pra parar ou desistir, em nenhum momento, em nenhuma situação. Tem que continuar avançando.” Essa resiliência psicológica, combinada com sua excelência técnica, faz dela uma adversária perigosa até o último segundo de cada combate.
O que também impressiona no seu cartel é que ela não domina só na sua categoria de peso. De fato, ela também se impõe no absoluto contra adversárias bem mais pesadas e fisicamente mais imponentes. Aí também, graças a uma técnica que absorve inteligentemente os ataques, redireciona com precisão a força adversária e neutraliza eficazmente a força bruta, ela prova de maneira clara que seu jiu-jitsu se sustenta notavelmente diante de todos os desafios imagináveis.
Qual é o estilo de luta único da Bia Mesquita?
O estilo da Bia Mesquita se baseia numa guarda aberta excepcionalmente fluida e ofensiva. Spider guard, lasso guard e De La Riva se encadeiam em transições naturais, em vez de posições isoladas. Sua assinatura: controle de distância milimétrico, pegadas sempre precisas e uma capacidade rara de transformar defesa em ataque por meio de raspagens, triângulos, omoplatas e pegadas de costas.
Uma guarda aberta que constrói o ataque
O coração pulsante do jiu-jitsu da Bia Mesquita, aquele que verdadeiramente marcou a modalidade e inspirou milhares de praticantes ao redor do mundo, é sua guarda aberta excepcional.
Não é uma guarda que se sofre passivamente esperando a adversária cansar.
É uma guarda com a qual ela constrói ativamente seu ataque.
Spider guard, lasso guard, De La Riva: no jogo dela, não são posições técnicas separadas que se aplicam caso a caso conforme um manual. Pelo contrário, são transições fluidas que se encadeiam naturalmente umas nas outras. Assim, formam uma língua técnica completa que ela fala fluentemente há anos. Para se aprofundar nessa posição-chave, confere também nosso guia sobre a guarda De La Riva, fundamental no jiu-jitsu brasileiro moderno.
Sua guarda nunca é estática ou travada numa configuração única. Ela respira, ela vive, ela se adapta em tempo real às mínimas reações da adversária. Às vezes, deixa deliberadamente uma porta aparentemente aberta para atrair a oponente para uma armadilha calculada. Em seguida, se reposiciona instantaneamente com uma velocidade desconcertante. Concretamente, criando um novo ângulo, ela surpreende com seu timing e ataca no momento exato em que a defesa relaxa. Ela não defende mecanicamente sua posição: tece inteligentemente uma rede invisível cujas malhas se apertam progressivamente em volta da adversária.
Suas pegadas são sempre precisas, nunca aproximadas.
Suas pernas controlam a distância crítica com precisão milimétrica.
E por trás dessa estrutura aparentemente simples, ela pode acionar tudo: raspagens, triângulos, omoplatas, pegadas de costas.
Mesmo quando suas adversárias “sabem” exatamente o que vai acontecer, mesmo depois de estudar seus vídeos por horas, elas não conseguem impedi-la de se expressar plenamente no tatame. É aí que reside toda a força de um sistema verdadeiramente dominado.
Transições, controle e finalização: a continuidade perfeita
O grande segredo da Bia Mesquita, aquilo que realmente a distingue das outras campeãs da sua época, não é uma técnica espetacular isolada que ela executaria melhor que todo mundo. Também não é uma posição mágica que só ela entende.
É a continuidade absoluta do seu jogo.
Muitas atletas são excepcionalmente fortes numa área técnica precisa: na guarda, na passagem ou no controle das costas. Elas se destacam no seu domínio preferido mas encontram dificuldades em outro lugar. A Bia, ao contrário, domina principalmente as zonas intermediárias inalcançáveis, esses momentos turvos do combate onde tudo pode virar.

Nesses momentos caóticos, entre duas posições bem codificadas.
Nesses instantes onde tudo pode virar para um lado ou para o outro.
Ela permanece perfeitamente calma e lúcida. Escolhe a melhor opção, se adapta instantaneamente, antecipa a reação seguinte.
Quando ela passa a guarda, é limpo e hermético. Quando pega as costas, é estável e solidamente travado. Por fim, quando ataca uma chave de braço ou um mata-leão, é a conclusão lógica e inevitável de um trabalho de minação invisível conduzido pacientemente por vários minutos.
Nada é forçado brutalmente.
Nada é deixado ao acaso.
É um jiu-jitsu “certo”, em toda sua pureza técnica, na mesma linhagem de elegância de Roger Gracie, cuja simplicidade se tornou arte.
Contra quem a Bia Mesquita travou suas maiores lutas?
A Bia Mesquita enfrentou as maiores figuras do jiu-jitsu feminino moderno. Suas rivalidades marcantes incluem Mackenzie Dern (que ela finalizou em 64 segundos em 2017), Luiza Monteiro (finalista do Mundial 2021), Bianca Basilio (derrotada na final do EBI 2018) e Gabi Garcia, encarnação da força bruta diante da sua técnica.
Contra Mackenzie Dern: o duelo das técnicas
Duas técnicas ofensivas no auge da arte, duas inteligências notáveis do movimento e do timing. Na época da rivalidade intensa entre elas, cada encontro entre Bia Mesquita e Mackenzie Dern era esperado pela comunidade mundial do jiu-jitsu como um choque estilístico de peso. De fato, o momento mais marcante segue sendo o cara a cara de 2017 no Rio Falls Jiu Jitsu Open: a Bia finalizou a Dern em apenas 64 segundos, um resultado que provocou um terremoto na comunidade mundial.
Contra Gabi Garcia: técnica versus força
Aqui temos o teste definitivo do jiu-jitsu brasileiro. Não é só um teste esportivo de performance física e condicionamento. De fato, é também um teste quase filosófico dos próprios fundamentos da modalidade popularizada pelos Gracie.
Técnica refinada contra força física bruta.
Estratégia inteligente contra estrutura corporal massiva.
Criatividade fluida contra força esmagadora.
A Bia não venceu todas as lutas contra a Gabi Garcia, longe disso. Ninguém pode pretender dominar sistematicamente uma adversária com tamanha vantagem física. Mesmo assim, ela provou em várias ocasiões, de maneira clara e convincente, que a técnica perfeitamente dominada pode desacelerar, neutralizar parcialmente e às vezes até controlar uma adversária fisicamente fora do comum.
Essas rivalidades intensas e midiatizadas moldaram profundamente o jiu-jitsu feminino moderno. Além disso, mostraram ao mundo inteiro que o jiu-jitsu feminino podia produzir lutas tão técnicas, estratégicas e emocionantes quanto o jiu-jitsu masculino.
Qual legado a Bia Mesquita deixa para o jiu-jitsu feminino?
O legado da Bia Mesquita vai muito além dos seus títulos individuais. Ela transformou a maneira como as mulheres abordam a guarda aberta, provou que dá pra dominar de forma duradoura pela técnica pura, e quebrou a ideia de que o jiu-jitsu feminino tinha que ser explosivo ou baseado em força. Ela se tornou um modelo técnico para toda uma geração de praticantes ao redor do mundo.
Hoje, quando uma jovem atleta de jiu-jitsu brasileiro trabalha com aplicação sua spider guard num clubinho de bairro, lapida com obsessão seus ângulos de guarda aberta, encadeia transições fluidas entre posições, ou desenvolve sua maneira pessoal de atacar as costas, há uma chance enorme de que ela esteja imitando, direta ou indiretamente, conscientemente ou não, o estilo distintivo da Bia Mesquita.

Ela mudou profundamente a forma como as mulheres abordam a guarda aberta no jiu-jitsu moderno.
Mostrou de maneira irrefutável que dá pra dominar de forma duradoura pela técnica pura.
Por fim, quebrou a ideia recebida de que o jiu-jitsu feminino tinha que ser obrigatoriamente explosivo ou baseado principalmente em força física.
Para além da performance esportiva, a Bia Mesquita carrega uma mensagem profunda sobre a acessibilidade do jiu-jitsu. Como ela gosta de lembrar: “O que é bonito no jiu-jitsu é que ele não trabalha só o corpo, mas também a mente. E é feito pra todo mundo. Não importa sua idade, seu físico ou seu nível. É pra todo mundo.” Essa filosofia inclusiva ela encarna por meio de um estilo técnico acessível e replicável, que prova que a inteligência do movimento pode compensar muitas desvantagens físicas.
Como a Bia Mesquita migrou para o MMA e o UFC?
A Bia Mesquita anunciou sua transição para o MMA em abril de 2023, entrou na American Top Team em setembro de 2023, depois encadeou cinco vitórias incluindo o título peso galo da LFA em junho de 2025. Assinou com o UFC em 30 de julho de 2025 e venceu suas duas primeiras lutas no UFC por mata-leão, atingindo a 15ª colocação do ranking UFC peso galo feminino em abril de 2026.
Uma professora rigorosa e acessível
Como muitas grandes campeãs antes dela, a Bia Mesquita dedica também uma parte importante do seu tempo ao ensino diário, às viagens internacionais e à condução de seminários técnicos pelo mundo. No entanto, ela faz isso com exatamente o mesmo estado de espírito rigoroso que na competição: sempre entender em profundidade antes de executar mecanicamente.
Ela não tenta fabricar clones perfeitos de si mesma.
Ela ensina princípios universais do jiu-jitsu.
Mecânicas fundamentais que funcionam para todos.
Uma forma diferente de pensar o jogo e suas possibilidades.
Seus alunos falam unanimemente de uma professora notavelmente calma e ponderada. De fato, metódica na sua pedagogia, ela toma sistematicamente o tempo necessário para explicar por que uma opção técnica funciona em determinado contexto específico, como prepará-la corretamente, e em quais situações precisas ela se torna realmente eficaz. Ela transmite também essa paciência que considera fundamental: “Aprendi a ter paciência, a continuar avançando, a manter o foco nos meus objetivos e simplesmente ir, ver até onde isso pode me levar.”

A transição para o MMA: uma progressão metódica
Em abril de 2023, a Bia Mesquita anunciou oficialmente que tinha assinado com a First Round Management. Alguns meses depois, em setembro de 2023, ela entrou na American Top Team, uma das academias de MMA mais prestigiadas do mundo. Essa decisão mostra claramente que ela não veio “testar” o MMA pela metade, mas que está levando a sério desde o começo.
A Bia fez sua estreia profissional no MMA em 15 de junho de 2024 no Spaten Fight Night, contra Jorgina Ramos. Venceu por finalização no primeiro round. Por consequência, a mensagem ficou clara: seu jiu-jitsu de nível mundial se traduz perfeitamente no octógono.
Um percurso LFA imaculado antes do UFC
Em seguida, a Bia engatou um percurso impressionante na Legacy Fighting Alliance (LFA), uma organização reconhecida como uma plataforma de lançamento importante para o UFC:
18 de outubro de 2024, LFA 194: vitória por finalização no primeiro round contra Shannel Butler.
7 de dezembro de 2024, LFA 198: vitória por finalização no segundo round contra Fernanda Araujo.
6 de março de 2025, LFA 203: vitória por desqualificação no segundo round contra Hope Chase.
20 de junho de 2025, LFA 211: vitória por nocaute técnico no segundo round contra Sierra Dinwoodie. Com isso, ela conquistou o cinturão vago da LFA peso galo feminino.
Cinco lutas. Cinco vitórias. Um título da LFA. Tudo em pouco mais de um ano. Logicamente, esse percurso atraiu a atenção da organização mais prestigiada do mundo.

A chegada da Bia Mesquita no UFC: estreia arrasadora
Em 30 de julho de 2025, a notícia caiu: a Bia Mesquita assinou com o Ultimate Fighting Championship. Para muitos praticantes de jiu-jitsu, ver uma lenda do grappling puro entrar na organização mais prestigiada do mundo do combate é um momento simbólico fortíssimo.
Uma das maiores técnicas do jiu-jitsu feminino moderno inscreveu seu nome no roster do UFC.
Sua estreia no UFC aconteceu em 11 de outubro de 2025 no UFC Fight Night 261 (UFC Rio), contra Irina Alekseeva. A Bia entregou exatamente a luta que todo mundo esperava dela: uma demonstração de grappling de alto nível, finalizada com um mata-leão (rear-naked choke) no segundo round. Essa atuação lhe rendeu imediatamente o bônus de “Performance da Noite”, distinção que recompensa as melhores apresentações da noite.
Segunda vitória no UFC e ranking mundial
Em 16 de março de 2026 no UFC Fight Night 269, a Bia engatou uma segunda vitória brilhante contra Montserrat Rendon, novamente por mata-leão, dessa vez logo no primeiro round. Em abril de 2026, ela aparece na 15ª posição do ranking UFC peso galo feminino, com um cartel MMA perfeito de 7 vitórias e 0 derrota.
Seu próximo desafio já está marcado: em 20 de junho de 2026, ela vai enfrentar Melissa Mullins no UFC Fight Night 279, numa busca metódica pela progressão até o top 10 mundial.
Uma bagagem técnica única para o MMA
A Bia Mesquita chega ao UFC com uma bagagem técnica absolutamente única.
- Uma base de elite em grappling forjada por mais de quinze anos no mais alto nível,
- Dez títulos mundiais IBJJF na faixa-preta (recorde Guinness),
- Uma inteligência tática excepcionalmente rara,
- Uma compreensão profunda das transições entre posições.
Seu jiu-jitsu, que dominou os tatames por mais de dez anos, se torna uma ameaça temível assim que a luta vai pro chão. Na maioria dos cenários onde a luta termina no chão, pouquíssimas lutadoras podem realmente esperar rivalizar com ela em pura técnica. Para descobrir as bases desse jogo de chão, dá uma olhada também no nosso artigo sobre a guarda fechada no jiu-jitsu brasileiro.
Como ela sempre repetiu: “Nunca dá pra desistir. Em situação nenhuma, em momento nenhum. Tem que continuar avançando.” Essa mentalidade, que a levou ao topo do jiu-jitsu mundial, parece perfeitamente adaptada às exigências implacáveis do UFC.
Sua chegada ao UFC não é só um novo capítulo pessoal na sua carreira. É também um momento simbólico para todo o jiu-jitsu feminino mundial.

FAQ: tudo sobre a Bia Mesquita
Aqui você encontra as respostas para as perguntas mais frequentes sobre a Bia Mesquita: sua trajetória, seu cartel, seu estilo e sua carreira atual no UFC.
Quem é a Bia Mesquita no jiu-jitsu brasileiro?
Bia Mesquita, nascida Beatriz de Oliveira Mesquita em 7 de abril de 1991 no Rio de Janeiro, é uma competidora brasileira de jiu-jitsu que detém o recorde mundial de 10 títulos IBJJF na faixa-preta (reconhecido pelo Guinness). Faixa-preta 4º grau pela Letícia Ribeiro (Gracie Humaitá), é considerada uma das maiores técnicas da história do JJB feminino.
Quantos títulos mundiais a Bia Mesquita ganhou?
A Bia Mesquita detém dez títulos mundiais IBJJF na faixa-preta, conquistados entre 2012 e 2021: oito na categoria meio-leve (2012-2016, 2018, 2019, 2021) e dois no absoluto (2013, 2014). Esse recorde é oficialmente reconhecido pelo Guinness World Records. Em 2022, foi introduzida ao IBJJF Hall of Fame.
Qual o estilo da Bia Mesquita?
Seu estilo se baseia numa guarda aberta excepcionalmente fluida, misturando spider guard, lasso guard e De La Riva em transições naturais. Sua assinatura: controle de distância milimétrico, pegadas sempre precisas e uma continuidade perfeita entre defesa e ataque. Ela prioriza a finalização (raspagens, triângulos, omoplatas, mata-leões) em vez das vitórias por pontos.
Quem é o treinador da Bia Mesquita?
A Bia Mesquita treina desde a adolescência com Letícia Ribeiro, lenda do jiu-jitsu feminino, na equipe Gracie Humaitá em Tijuca (Rio de Janeiro). Sua linhagem de faixa-preta passa por C. Gracie, Hélio Gracie, Royler Gracie, Vini Aieta e Letícia Ribeiro. Desde 2023, ela treina também na American Top Team para a carreira de MMA.
Qual o cartel atual da Bia Mesquita no MMA?
Em abril de 2026, a Bia Mesquita ostenta um cartel MMA profissional perfeito de 7 vitórias e 0 derrota. Ela soma 2 vitórias no UFC (Irina Alekseeva em 11 de outubro de 2025 e Montserrat Rendon em 16 de março de 2026), ambas por mata-leão. Está atualmente classificada na 15ª posição do ranking UFC peso galo feminino.
Quando é a próxima luta da Bia Mesquita no UFC?
A próxima luta da Bia Mesquita no UFC está marcada para 20 de junho de 2026 no UFC Fight Night 279, contra Melissa Mullins na categoria peso galo feminino. Esse confronto representa mais uma etapa na sua progressão rumo ao top 10 mundial UFC, depois do percurso LFA imaculado e das duas primeiras vitórias no UFC.
Por que a Bia Mesquita é considerada uma lenda?
A Bia Mesquita é considerada uma lenda por várias razões: seu recorde Guinness de 10 títulos mundiais IBJJF, sua dominância de uma década (2012-2021), sua entrada no IBJJF Hall of Fame (2022), sua influência no estilo de jogo de toda uma geração de praticantes, e hoje sua transição bem-sucedida para o UFC com cartel perfeito.
Conclusão: uma elegância que marcou a história do jiu-jitsu
A Bia Mesquita nunca apostou no marketing barato, nas declarações chocantes calculadas para fazer barulho ou nos exageros espetaculares para impressionar a multidão. Pelo contrário, ela construiu pacientemente uma carreira excepcional e coerente, fundada numa precisão técnica irrepreensível e numa fluidez natural no movimento.
Um jiu-jitsu esteticamente bonito, mas sobretudo perigosamente eficaz.
Refinado na sua expressão, mas nunca frágil diante da adversidade.
Técnico na sua essência, mas sempre perfeitamente realista.
Ela encarna assim uma verdade que todo praticante de jiu-jitsu acaba entendendo cedo ou tarde ao longo do seu caminho nos tatames: a técnica perfeitamente executada, compreendida em profundidade e aplicada com inteligência tática, sempre acaba triunfando no longo prazo.
Resumindo, sua mensagem condensa perfeitamente sua filosofia de vida e de combate: “É preciso manter a esperança, manter o foco no que é importante pra gente, nos nossos objetivos, e simplesmente ir. Ver até onde isso vai nos levar.” Essa abordagem, ao mesmo tempo humilde e determinada, levou a Beatriz Mesquita ao topo absoluto da sua modalidade, e agora ao mais alto nível do MMA.
E em toda a história do jiu-jitsu feminino, raras são aquelas que encarnaram essa verdade eterna com tanta naturalidade, domínio técnico e elegância inspiradora quanto a Beatriz “Bia” Mesquita.
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