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Leandro Lo: o competidor mais completo da história do JJB

Alguns atletas ganham títulos. Outros marcam um esporte para sempre. Leandro Lo fez os dois. Oito títulos mundiais da IBJJF. Cinco categorias de peso diferentes. Um recorde que ninguém igualou na...

Dylan GALEA
Dylan GALEA
25 março 2026 18 Min Read
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léandro lo bjj

Alguns atletas ganham títulos. Outros marcam um esporte para sempre. Leandro Lo fez os dois. Oito títulos mundiais da IBJJF. Cinco categorias de peso diferentes. Um recorde que ninguém igualou na história do JJB de kimono. Mas além dos números, Leandro Lo representava algo mais raro: um competidor que tornava o jiu-jitsu brasileiro bonito de assistir. Ofensivo, criativo, incansável.

Table Of Content

  • De onde veio Leandro Lo?
  • Como Leandro Lo construiu seu estilo de jogo?
  • Qual é o cartel de Leandro Lo?
  • Por que Leandro Lo fundou a NS Brotherhood?
  • Quais adversários marcaram a carreira de Leandro Lo?
  • A tragédia: o que aconteceu em 7 de agosto de 2022?
  • Como está o processo judicial?
  • Que legado Leandro Lo deixa para o JJB?
  • Conclusão: Faixa Preta Nunca Morre
  • FAQ: Leandro Lo em perguntas

Sua morte trágica em agosto de 2022, aos 33 anos, deixou um vazio imenso na comunidade mundial do JJB. Ainda assim, três anos e meio depois, sua influência continua em toda parte: nas academias que ensinam suas passagens de guarda, nos competidores que citam seu nome como inspiração, no programa escolar que leva seu nome no Brasil. Não dá para contar a história do jiu-jitsu brasileiro sem falar de Leandro Lo. Este é o seu perfil.

Leandro Lo, octacampeão mundial de JJB
Leandro Lo, octacampeão mundial de JJB

⚡ Ficha técnica — Leandro Lo

Nome completoLeandro Pereira do Nascimento Lo
Nascimento11 de maio de 1989, São Paulo, Brasil
Falecimento7 de agosto de 2022 (33 anos), São Paulo, Brasil
Nacionalidade🇧🇷 Brasileiro
FaixaPreta (com Cicero Costha)
EquipeNS Brotherhood (fundador) / PSLPB Cicero Costha
EstiloPassagem de guarda ofensiva, guarda aranha, pressão constante
LinhagemCarlos Gracie → Hélio Gracie → Rickson Gracie → Marcelo Behring → Waldomiro Perez → Roberto Godoi → Marco Barbosa → Cicero Costha → Leandro Lo
HonrariaHall da Fama da IBJJF (2023, póstumo)

De onde veio Leandro Lo?

Leandro Lo nasceu em 11 de maio de 1989 na zona leste de São Paulo, uma das regiões mais carentes da megalópole brasileira. Nada em sua trajetória rumo ao topo do JJB mundial estava escrito de antemão. Foi um projeto social que mudou tudo.

Da Capoeira ao Projeto Social: o moleque de São Matheus

Antes do JJB, houve a Capoeira. Leandro a praticou por cerca de dois anos no seu bairro. Mas o garoto queria competir, e a Capoeira não tem torneios. Então, em 2004, aos 14 anos, ele entrou no Projeto Social Lutando Pelo Bem (PSLPB), um programa fundado pelo professor Cicero Costha para dar às crianças de origem humilde acesso gratuito ao jiu-jitsu brasileiro. Esse projeto se tornaria o berço de um dos maiores campeões da história do JJB. A Capoeira, aliás, nunca foi esquecida: Leandro contaria mais tarde que essa primeira disciplina lhe deu uma mobilidade e uma consciência corporal que o ajudaram desde os primeiros passos no JJB.

As condições de vida no PSLPB eram espartanas. No auge, até quinze competidores dormiam na sala de treino. Sem cozinha, só um micro-ondas. A refeição diária: macarrão com atum em lata, sem molho. O dinheiro ia para as inscrições dos campeonatos, não para a comida. Foi nesse ambiente que Leandro Lo forjou sua fome de vitória, ao lado de futuros campeões como os irmãos Miyao, Yago de Souza e Wellington Luís. Anos depois, Lo diria dos Miyao: “Nunca vi ninguém trabalhar tanto quanto esses dois. Os caras mais trabalhadores do mundo.” Mesmo octacampeão mundial, Lo continuou se apresentando como “o moleque do projeto”. Ele nunca esqueceu de onde veio — a começar pelo bairro de São Matheus, onde tudo começou.

Um dia de operário, uma vida no tatame

O JJB não paga no começo. Leandro morava a 1h40 da academia, três ônibus por trajeto. Havia dias em que não tinha dinheiro para comer e esperava o jantar na casa da mãe. Ao perder o auxílio da família aos 18 anos, tentou um dia trabalhar na siderurgia: carregar ferro, cortar ferro, das 7h às 20h30, por 25 reais. Um único dia. Na manhã seguinte, ligou para Cicero: “Pelo amor de Deus, arruma uma aula para eu dar. Se pagar o ônibus, está bom. Eu não quero trabalhar.”

Cicero também não o deixou se desviar para os estudos. Quando Leandro anunciou que havia encontrado um emprego, a resposta foi imediata: “Você vai desperdiçar seu talento e virar um cara como os outros.” Quando o JJB começou a atrapalhar a escola: “Se o jiu-jitsu está atrapalhando os estudos, larga a escola.” Palavras que muitos julgariam irresponsáveis. Para Leandro Lo, foram proféticas.

Leandro era, de todo modo, um atleta nato. Desde os primeiros anos, acumulou títulos nas categorias de base. Campeão mundial IBJJF de faixa azul juvenil em 2005, voltou ao pódio em 2006. O talento era evidente. Mas foi uma lesão na faixa roxa que realmente moldou o competidor que ele se tornaria.


Como Leandro Lo construiu seu estilo de jogo?

Leandro Lo construiu seu estilo transformando uma lesão em oportunidade. Inicialmente conhecido como especialista em guarda aranha e triângulo na faixa roxa, aproveitou um longo período longe das competições para desenvolver o jogo de passador que se tornaria sua marca registrada na faixa preta.

A lesão o afastou dos tatames de competição por vários meses. Sem a pressão dos campeonatos, Leandro se dedicou inteiramente ao treino. Estudou os passadores que o inspiravam: Jacaré e seu toreando, Romulo Barral e sua cross-grip em pé, e claro o próprio Cicero Costha, que ensina exclusivamente a passagem em pé. Lo fundiu essas influências em um estilo próprio: toreando, knee cut, pressão constante, movimentos laterais. Foi nesse período que nasceu o Leandro Lo que o mundo descobriria na faixa preta.

18 rounds por dia: a forja do campeão

O volume de treino de Lo entre 2009 e 2013 é simplesmente assombroso. Na prática: três sessões por dia. Seis rounds de 8 minutos por sessão, com 2 minutos de descanso entre cada round. Mais 2 horas de repetição técnica diária. Ou seja, 18 rounds de sparring por dia, além do trabalho posicional. Foi nesse período que ele atingiu o que ele mesmo chamava de suas “10.000 horas”: o ponto de virada em que a técnica vira instinto.

Sua filosofia de treino não deixava espaço para o conforto. Como ele mesmo resumia: “Rola para matar ou morrer.” Nada de flow roll. Ele sempre começava pelos parceiros mais pesados, mais perigosos, e depois descia em intensidade. No PSLPB, todo mundo rolava nesse espírito: “Todo mundo rola machucado, todo mundo rola cansado.” Essa era a cultura da sala.

Pressão constante: a marca registrada de Leandro Lo

O resultado dessa forja foi um estilo único na história do JJB competitivo. Leandro combinava uma base técnica irrepreensível com uma intensidade física permanente. Sua passagem de guarda era ao mesmo tempo metódica e explosiva, com uma capacidade rara de emendar tentativas sem nunca aliviar a pressão. Acima de tudo, ele tinha aquela qualidade que comentaristas e treinadores chamam de “forward pressure”: um avanço constante, incansável, sufocante para o adversário.

Leandro Lo, passagem de guarda ofensiva em competição
Leandro Lo, passagem de guarda ofensiva em competição

Esse estilo ofensivo distinguia Leandro Lo da maioria dos competidores de elite. Onde outros buscavam primeiro garantir vantagens e administrar o placar, Lo avançava. Sempre. Essa abordagem tornava suas lutas emocionantes de assistir, mesmo para um espectador leigo. É também o que fez dele um dos atletas mais populares do cenário competitivo.

“

As pessoas lembram do seu jeito de lutar, não dos seus títulos. Por isso todo mundo amava ver o Leandro. Ele dava tudo no tatame. Usava todas as armas. O estilo Leandro Lo.

— André Galvão, podcast Atos BJJ (2022)


Qual é o cartel de Leandro Lo?

O cartel de Leandro Lo é um dos mais impressionantes da história do JJB de kimono. Oito títulos mundiais da IBJJF, medalhas de ouro em cinco categorias de peso diferentes, e uma dominação que se estendeu por uma década completa, de 2012 a 2022.

A decolagem: 2011-2013

Tudo começou em abril de 2011. Leandro Lo, ainda relativamente desconhecido no cenário internacional, venceu Michael Langhi no World Pro da UAEJJF. Langhi estava invicto na categoria leve havia três anos. Aquela vitória colocou Lo no mapa mundial do JJB da noite para o dia. Galvão lembra da sua primeira reação: “Leandro Lo? Que nome é esse? Quem é esse magrelo? Aí eu vi ele lutar e ele botava um ritmo alucinante.”

No mesmo ano, ele venceu o Campeonato Brasileiro. Em 2012 veio a consagração: primeiro título mundial IBJJF na faixa preta, na categoria leve, vencendo Lucas Lepri na final. Lepri se tornaria um dos seus rivais mais constantes. Lo emendou um segundo título mundial em 2013, novamente nos leves. A dominação estava lançada.

A subida de categoria: 2014-2016

É aqui que Leandro Lo se separou do resto. Em vez de ficar confortável na sua categoria, decidiu subir de peso. Em 2014, venceu o título mundial nos médios. Em 2015, defendeu o título com sucesso. Em 2016, subiu de novo e venceu nos meio-pesados.

Três categorias de peso, cinco títulos mundiais em cinco anos. Algo inédito no JJB moderno. E 2016 ainda reservava mais um feito histórico: Leandro Lo se tornou o primeiro tricampeão da Copa Pódio, vencendo os Grand Prix leve, médio e pesado no mesmo ano. Três categorias. Três títulos. Na mesma temporada. Ninguém havia feito isso antes dele. Ninguém repetiu desde então. Em paralelo, Lo abriu mão do próprio sonho no absoluto do Mundial daquele ano, cedendo a vaga ao amigo Buchecha. Um sacrifício que o público só descobriria anos depois.

Foi também em 2016 que Lo começou a levar a sério a preparação física. Depois de uma derrota para Bernardo Faria em 2015, confidenciou ao companheiro de equipe Yago de Souza: “Vou virar Galvão ou Barral.” Começou a musculação em modo “jail style”, como ele chamava: séries de 5×5, trabalho de explosão, movimentos longos e completos para preservar a mobilidade. O resultado foi imediato: já em 2016 chegou às semifinais do absoluto e percebeu que a diferença era incomparável.

Leandro Lo treinando

O recorde e a consagração: 2018-2022

Em 2017, Lo subiu para os pesados e chegou à final mundial, perdendo para Nicholas Meregali. No ano seguinte, no Mundial de 2018, ele mirava o recorde de Saulo Ribeiro (títulos em quatro categorias diferentes). Lesionado no ombro na final dos meio-pesados contra Mahamed Aly, foi obrigado a abandonar. Escalado para a final do absoluto contra Marcus “Buchecha” Almeida, Lo parecia condenado pela lesão. Mas Buchecha, num gesto raro de respeito (normalmente reservado a companheiros de equipe), escolheu ceder a vaga. Lo conquistou assim seu primeiro título no absoluto e seu quarto título em uma quarta categoria, igualando o recorde de Ribeiro. Um momento que diz tudo sobre o respeito que Leandro Lo inspirava, inclusive nos adversários mais temíveis.

O próprio Lo não considerava plenamente esse título. Na entrevista com Galvão, confessou: “Tem um que eu não conto muito, aquele em que machuquei o ombro e o Buchecha me deu a vaga. Por isso eu queria fazer outro absoluto: ganhar a final de verdade.” Essa honestidade resume o homem: oito títulos mundiais, e ainda assim considerava um deles incompleto.

A travessia do deserto: 2018-2021

A lesão de 2018 abriu, porém, um longo período de dúvida. Lo passou dois anos reconstruindo o ombro, a confiança e o jogo. Ele descreveu esse período a Galvão sem rodeios: as náuseas de ansiedade antes do treino, o corpo que não respondia, o medo de não voltar. “Levei dois anos para minha cabeça se ajustar de novo. Eu perdia, mas melhorava um pouco a cada vez. Fui colocando as peças de volta, uma por uma.”

Leandro Lo em competição de JJB

Em 2019, ele finalmente quebrou o recorde ao vencer o título nos pesados: cinco categorias de peso diferentes no Mundial da IBJJF. Um recorde histórico. Depois, em junho de 2022, Lo venceu seu oitavo título mundial, dez anos após a primeira conquista na faixa preta. Ele voltou transformado: mais musculação, mais explosão, e sobretudo uma maturidade mental forjada pelos anos de dúvida. Seria seu último campeonato.

🏆 Leandro Lo em números

Títulos mundiais IBJJF8
Categorias de peso (Mundial)5 (recorde)
Títulos Pan-Americanos IBJJF8
Copa Pódio (Grand Prix)6 (tríplice coroa 2016)
Campeonatos Brasileiros3
Anos de dominação2012–2022 (10 anos)
Hall da Fama IBJJF2023 (póstumo)

Fontes: perfil do competidor no BJJ Heroes, IBJJF.


Por que Leandro Lo fundou a NS Brotherhood?

Leandro Lo fundou a NS Brotherhood em 2015 para construir um projeto à sua imagem: ofensivo, ambicioso, voltado para a competição de alto nível. O nome “New School” refletia sua visão de um JJB moderno, em que técnica e intensidade física caminham juntas.

Depois de anos no PSLPB Cicero Costha, a academia onde tudo começou, Leandro sentiu a necessidade de voar com as próprias asas. A separação de Cicero Costha não foi um conflito, mas uma evolução natural. Lo queria construir sua própria estrutura, atrair competidores de elite e transmitir sua filosofia de JJB.

A NS Brotherhood rapidamente atraiu nomes de peso. Entre os atletas que deixaram o PSLPB com Leandro estavam Luiza Monteiro, Helio Dias, Gustavo “Braguinha”, Ygor Schneider, Anderson Lira e Wellington Luís. O projeto nasceu de uma convicção: os laços forjados no tatame vão além do JJB. A equipe se impôs no cenário internacional e confirmou que Leandro Lo não era apenas um competidor excepcional, mas também um líder capaz de estruturar um projeto coletivo.


Quais adversários marcaram a carreira de Leandro Lo?

A carreira de Leandro Lo é marcada por rivalidades que entraram para a história do JJB competitivo. Cada subida de categoria o colocou diante de novos adversários, e cada rivalidade revelou uma faceta diferente do seu talento.

Lucas Lepri. A rivalidade mais longa. Os dois se enfrentaram inúmeras vezes nos leves, com vantagem geral para Lo. Lepri, técnico meticuloso e também multicampeão mundial, era o espelho perfeito: dois estilos diferentes, um nível idêntico. Suas finais de Mundial estão entre as mais bonitas da era moderna.

Michael Langhi. A vitória de Lo sobre Langhi no World Pro de 2011 foi o ponto de partida de tudo. Langhi era o homem a ser batido havia três anos. Destroná-lo projetou Leandro para outra dimensão.

Nicholas Meregali. A única final mundial que Lo perdeu de forma clara, em 2017, nos pesados. Meregali, com seu porte e seu jogo de guardeiro dominante, representou o limite da subida de categoria de Lo. Essa derrota só aumentou o respeito entre os dois.

Lo e Buchecha: mais que uma rivalidade

Marcus “Buchecha” Almeida. Mais que uma rivalidade: uma irmandade. O confronto entre Lo e Buchecha, sobretudo no absoluto, simbolizava o choque entre a técnica móvel de Lo e a potência física bruta de Buchecha. Duas filosofias de luta. Duas lendas.

O que o público mais guardou foi o gesto de Buchecha no Mundial de 2018, quando cedeu a final do absoluto a um Lo lesionado. Mas ninguém sabia que, em 2016, foi Lo quem deu o primeiro passo. Buchecha contou a história após a morte de Leandro: “Ninguém viu o que ele fez em 2016, quando abriu mão do sonho dele e me deixou ir direto para a final do absoluto.” O gesto de 2018 não foi um presente. Foi uma retribuição. Buchecha descreveu Lo como “um irmão” e “um ser humano iluminado, fora do tatame também”.

Leandro Lo e Buchecha
Marcus Buchecha e Leandro Lo

A tragédia: o que aconteceu em 7 de agosto de 2022?

Em 7 de agosto de 2022, Leandro Lo foi a uma noite de música ao vivo no Clube Sírio (um clube social do bairro de Indianópolis, zona sul de São Paulo), onde o grupo de pagode Pixote se apresentava. Ele estava com amigos. A noite era tranquila.

Segundo testemunhas e a investigação policial, um homem se aproximou da mesa de Leandro e provocou uma discussão. Esse homem era Henrique Otávio Oliveira Velozo, tenente da polícia militar de São Paulo, à paisana e de folga. Lo tentou acalmar a situação imobilizando-o no chão, e depois o soltou. Velozo se levantou, sacou uma arma escondida sob a roupa e atirou em Leandro Lo.

O campeão foi levado às pressas ao hospital, onde teve morte cerebral constatada. Leandro Lo morreu aos 33 anos, no auge da carreira, menos de dois meses depois de vencer seu oitavo título mundial. Poucas semanas antes, na entrevista com Galvão, ele falava em abrir a própria academia aos 35, em passar da competição para o ensino. Não teve tempo.

Velozo se apresentou à Corregedoria da polícia militar no dia seguinte. Foi colocado em prisão preventiva no presídio militar Romão Gomes, em São Paulo.

O velório e o enterro de Leandro Lo aconteceram em 9 de agosto de 2022 no cemitério do Morumbi, em São Paulo. Dezenas de atletas de kimono formaram um corredor de honra do caixão até o túmulo. A comunidade mundial do JJB estava em choque.


Como está o processo judicial?

O processo judicial teve muitas reviravoltas desde 2022. Eis os fatos, tal como documentados pelas fontes brasileiras e internacionais.

Já nos dias seguintes à morte de Lo, a comunidade do JJB se mobilizou. Buchecha lançou um manifesto assinado por equipes, atletas, mídias especializadas e pela família, exigindo uma investigação imparcial e um julgamento justo, sem privilégios ligados ao status de policial militar do suspeito. Esse manifesto, divulgado no mundo inteiro, mostrou a dimensão do choque provocado pelo caso.

O julgamento e a absolvição controversa

O Ministério Público de São Paulo denunciou Velozo por homicídio qualificado com três qualificadoras (motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima). O julgamento, inicialmente previsto para maio de 2025, foi adiado duas vezes após incidentes processuais.

O júri aconteceu finalmente de 12 a 14 de novembro de 2025 no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo. Após três dias de audiências, o júri popular (cinco mulheres, dois homens) absolveu Velozo, aceitando a tese de legítima defesa apresentada pela defesa. O policial foi libertado em 15 de novembro de 2025.

O veredicto provocou uma onda de choque na comunidade mundial do JJB. Fátima Lo, mãe de Leandro, declarou ter “enterrado o filho pela segunda vez”. O Ministério Público anunciou recurso contra a decisão. O advogado da família contestou a versão de Velozo e confirmou a intenção de continuar a batalha judicial.

Último desdobramento conhecido: em março de 2026, um tribunal de São Paulo confirmou por unanimidade a expulsão de Velozo da polícia militar. Embora absolvido no criminal, o Conselho de Justificação da corporação o considerou inapto para exercer a função de oficial. O recurso na esfera penal continua em andamento.


Que legado Leandro Lo deixa para o JJB?

O legado de Leandro Lo vai muito além da competição. Ele mudou a forma como uma geração inteira de praticantes concebe o JJB ofensivo, e seu impacto continua presente nas academias do mundo inteiro.

Leandro Lo vitorioso em competição de JJB

Um modelo técnico

A passagem de guarda de Leandro Lo virou referência pedagógica. Seu toreando, seu knee cut, sua capacidade de emendar tentativas de passagem sem pausa: tudo isso faz parte hoje do currículo de inúmeras academias. Para professores e competidores, estudar o jogo de Lo é estudar a essência do JJB ofensivo de kimono. Seu estilo lembra, aliás, o de Roger Gracie num ponto essencial: a simplicidade aparente escondia um domínio técnico absoluto.

🥋 Estude o jogo de Leandro Lo

Capa do instrucional Active Guard Passing Explained de Leandro Lo (BJJ Fanatics)

Leandro filmou seu sistema em vida. Seus instrucionais continuam sendo a melhor forma de estudar sua passagem e sua guarda aberta direto da fonte (em inglês):

  • Active Guard Passing Explained (BJJ Fanatics): seu sistema completo de passagem — toreando, knee slice, double unders — explicado por ele mesmo
  • The Lo Guard & Matrix Passing (BJJ Fanatics): suas técnicas avançadas contra as guardas modernas (50/50, X-guard, worm guard)
  • The Active Open Guard Encyclopedia (BJJ Fanatics): o outro lado do seu jogo — a guarda aberta, a spider-X e as raspagens

Transparência: os links acima são links de afiliado. Eles não mudam o preço para você e ajudam a apoiar o BJJ-Rules.

Um símbolo social

A história de Leandro Lo, criança de um bairro carente de São Paulo que virou campeão mundial graças a um projeto social, encarna a promessa do JJB como ferramenta de transformação social. O Projeto Social Lutando Pelo Bem de Cicero Costha, que formou Lo, continua seu trabalho. Em outubro de 2024, a cidade de Belo Horizonte lançou o programa “Leandro Lo, o JJB na escola”, usando sua história como inspiração para levar o jiu-jitsu às escolas públicas.

Sua família e seus amigos próximos (principalmente Buchecha e sua irmã Amanda Lo) também criaram o Instituto Leandro Lo para dar continuidade ao que sempre foi o sonho de Leandro: ajudar jovens a se tornarem atletas e viverem do esporte, como ele fez saindo do bairro de São Matheus. A iniciativa prolonga o legado do “moleque do projeto”, oferecendo a outras crianças as mesmas chances que Cicero Costha um dia deu a Leandro.

Leandro Lo, membro do Hall da Fama do JJB

Um reconhecimento mundial

Em maio de 2023, a IBJJF incluiu Leandro Lo no seu Hall da Fama a título póstumo, ao lado de lendas como Roger Gracie e Marcelo Garcia. A UAEJJF também o homenageou pelos seus múltiplos títulos no World Pro. No Mundial de 2022 e no ADCC 2022, minutos de silêncio foram observados em sua memória. No mundo inteiro, competidores ainda usam patches e kimonos com sua imagem. A frase “Legends Never Die”, adotada pela comunidade do JJB, tornou-se inseparável do seu nome.

Nas palavras deles: quem o conheceu

“

Leandro Lo foi um dos maiores do nosso esporte. Um exemplo de verdadeiro faixa preta, de artista marcial e de campeão dentro e fora dos tatames. Descanse em paz, lenda.

— IBJJF, comunicado oficial (agosto de 2022)

“

Descanse em paz Leandro. Só agora paro, sento e vejo o quanto é significativo para mim um dia ser admirado por você. Lembro de quando você falava para eu treinar menos, lembro quando você comprou um moletom pra mim, pois não tinha dinheiro, lembro de você enfurecido em raros treinos que não conseguia passar minha guarda… mas o que vai ficar mais marcado para mim é a maneira como encarava o ato “viver”. Obrigado por tudo. Faixa preta nunca morre.

— João Miyao (agosto de 2022)


Conclusão: Faixa Preta Nunca Morre

Leandro Lo não é apenas um campeão. É uma referência. Um ponto de apoio para todos que acreditam que o JJB deve ser ofensivo, espetacular e acessível. Um moleque de um bairro difícil de São Paulo, que trabalhou um dia na siderurgia antes de decidir que sua vida seria no tatame, e que provou que o talento, combinado com o trabalho e um ambiente acolhedor, pode levar ao topo do mundo.

Três anos e meio após sua partida, sua influência permanece intacta. Sua passagem de guarda continua sendo estudada, seu nome continua sendo gritado. Sua história segue inspirando milhares de praticantes que sobem no tatame todos os dias, em academias dos quatro cantos do mundo. Leandro Lo foi tirado do JJB cedo demais. Mas o que ele construiu no tatame não vai desaparecer nunca. Faixa preta nunca morre.

“

Vivendo o presente! Guardo isso comigo, não gosto de economizar nada nesta vida. Tudo que eu tenho é o agora.

— Leandro Lo


FAQ: Leandro Lo em perguntas

Quantos títulos mundiais Leandro Lo conquistou?

Leandro Lo conquistou oito títulos mundiais da IBJJF na faixa preta, entre 2012 e 2022. Ele também detém o recorde de categorias de peso diferentes vencidas no Mundial: cinco (leve, médio, meio-pesado, pesado e absoluto).

Qual era o estilo de jogo de Leandro Lo?

Leandro Lo era conhecido principalmente pela sua passagem de guarda ofensiva e constante, inspirada em Jacaré, Romulo Barral e Cicero Costha. Seu toreando e seu knee cut eram referências técnicas. No início da carreira, ele também era reconhecido pela guarda aranha e pelos triângulos. O que o distinguia dos outros competidores era o forward pressure: um avanço permanente, físico e sufocante para o adversário.

Quem formou Leandro Lo no JJB?

Leandro Lo recebeu a faixa preta de Cicero Costha, fundador do Projeto Social Lutando Pelo Bem (PSLPB) em São Paulo. Esse projeto social oferecia acesso gratuito ao JJB para crianças de origem humilde. Antes do JJB, Lo praticou Capoeira por dois anos. Em 2015, fundou sua própria equipe, a NS Brotherhood, mantendo o laço de respeito com Costha.

Como Leandro Lo morreu?

Leandro Lo foi morto a tiros em 7 de agosto de 2022 no Clube Sírio, em São Paulo, durante uma noite de música ao vivo. O atirador, um tenente da polícia militar de folga, foi preso no dia seguinte. Após o julgamento em novembro de 2025, o júri absolveu o policial aceitando a tese de legítima defesa. A família de Lo e o Ministério Público anunciaram recurso contra a decisão.

Leandro Lo está no Hall da Fama da IBJJF?

Sim. Em maio de 2023, a IBJJF incluiu Leandro Lo no seu Hall da Fama a título póstumo, no dia em que ele completaria 34 anos. Ele se junta a lendas como Roger Gracie e Marcelo Garcia. A UAEJJF também o homenageou pelos títulos no World Pro.

Qual é o legado de Leandro Lo no JJB?

O legado de Leandro Lo é triplo. Tecnicamente, sua passagem de guarda continua sendo referência nas academias do mundo inteiro. Socialmente, sua trajetória de um projeto social até o topo mundial inspira milhares de jovens praticantes. Simbolicamente, a frase “Faixa preta nunca morre”, adotada pela comunidade brasileira, tornou-se inseparável do seu nome. Um programa escolar leva seu nome em Belo Horizonte desde 2024.


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Dylan GALEA

Dylan GALEA

Dylan Galea é o fundador do BJJ-Rules. Faixa roxa e apaixonado pelo Jiu-Jitsu Brasileiro, criou o BJJ-Rules para ser a voz do JJB na comunidade francófona: regras da IBJJF explicadas, técnicas, perfis de atletas e história da arte suave.

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