O UFC Apex de Las Vegas vibrou mais uma vez sob a intensidade do jiu-jitsu de alto nível. Para esta segunda edição do UFC BJJ, o evento cumpriu todas as suas promessas com finalizações espetaculares, um momento histórico para a França, e a confirmação de que os irmãos Tackett são realmente a nova geração dourada do grappling.
O fenômeno UFC BJJ: números que impressionam
Antes de entrar no assunto principal, é preciso lembrar do sucesso fenomenal deste novo formato. O primeiro evento UFC BJJ já havia marcado os espíritos. Com 3,6 milhões de espectadores distribuídos em 186 países ao redor do mundo. Um número que demonstra o apetite do público por este formato revolucionário que combina espetáculo e técnica pura.
A taxa de finalização excepcional de 90% no primeiro evento também havia estabelecido um novo padrão no mundo do grappling, prometendo ação e entretenimento a cada luta. O UFC BJJ 2 deveria confirmar esta tendência, e a aposta foi amplamente cumprida.
O novo sistema de regras UFC BJJ: revolução técnica
UFC BJJ não se contenta em retomar os códigos tradicionais do jiu-jitsu. A organização desenvolveu um sistema de regras especificamente pensado para o espetáculo e a eficácia. O sistema de pontuação de 10 pontos empresta seus códigos do MMA, com uma hierarquia clara dos critérios de julgamento.
A filosofia é simples mas revolucionária: apenas as técnicas ofensivas são recompensadas. Acabaram os pontos para defesa passiva. Os juízes avaliam segundo três critérios hierarquizados por ordem de importância:
- A iniciação de tentativas de finalização eficazes (critério prioritário)
- A execução de técnicas ofensivas (takedowns, passagens de guarda)
- O controle do ritmo da ação
Esta abordagem força os atletas a constantemente atacar e criar perigo, eliminando as fases estáticas que às vezes podem retardar as competições tradicionais. O resultado? Um espetáculo permanente onde cada segundo conta.
Um momento histórico: Aurélie Le Vern primeira francesa campeã UFC BJJ
A vitória foi tão eficiente quanto impressionante. Depois de primeiro resistir aos ataques de Lira, Aurélie soube reverter a situação graças a um “lock de ombro” (shoulder lock estilo Gordon Ryan) eficaz. Ela se posiciona então em posição dominante para finalizar com uma Americana desde os 100 quilos. Uma finalização técnica e rápida que inscreve definitivamente o nome de Aurélie Le Vern na história do jiu-jitsu francês.
“Foi eficiente, é top!” – impossível resumir melhor esta performance histórica que abre caminho para uma nova geração de grapplers franceses na cena mundial.

Luta por luta: análise detalhada da noite
Jalen Fonancier vs Everton Teixeira: a abertura perfeita
A noite começou em um ritmo frenético com o duelo entre dois jovens prodígios: Jalen Fonancier (19 anos, EUA) e Everton Teixeira (22 anos, Brasil). Esta luta bantamweight opôs dois estilos contrastantes, com Fonancier representando a nova escola americana e Teixeira a escola brasileira tradicional.
O resultado foi rápido e espetacular. Fonancier, apesar de sua pouca idade, demonstrou uma maturidade técnica impressionante ao finalizar com uma heel hook eficaz. Esta vitória confirma o status de futuro crack deste grappler que treina agora com “17 anos de experiência” apesar de seus apenas 19 anos.
Ele mesmo diz: “As pessoas não percebem, eu faço Jiu-jitsu desde os 2 anos, isso faz 17 anos!”

Tammy Musumeci vs Leilani Bernales: experiência contra garra
A luta feminina flyweight entre Tammy Musumeci (31 anos) e Leilani Bernales (25 anos) ofereceu um contraste interessante de estilos. Musumeci, cinco vezes campeã mundial da IBJJF, fez valer sua experiência diante da garra da peruana radicada em Miami.

O que torna a performance de Tammy ainda mais notável é seu status de advogada em tempo integral. Diferente da maioria dos competidores deste nível que treinam em tempo integral, ela equilibra entre sua carreira jurídica e sua paixão pelo jiu-jitsu, treinando até mesmo em sua garagem em Las Vegas. Sua vitória por decisão demonstra que com qualidade de treino, a quantidade nem sempre é necessária.
Kennedy Maciel vs Ademir Barreto: a nova geração brasileira
A luta entre Kennedy Maciel (Alliance) e Ademir Barreto (GF Team) teve um sabor particular, opondo dois representantes das equipes lendárias e rivais do jiu-jitsu brasileiro. Kennedy, filho do lendário Cobrinha, carregava o peso da herança familiar em seus ombros.

Este duelo lightweight cumpriu todas as suas promessas com um ritmo sustentado nos três rounds. Maciel acabou pegando as costas de Barreto no terceiro round, mas sem conseguir finalizar antes do fim do tempo regulamentar. A vitória de Maciel por decisão após esta luta intensa ilustra perfeitamente a profundidade do talento brasileiro e mostra que a nova geração continua a perpetuar as tradições de excelência de seus antecessores.
Raquel Canuto vs Mo Black: explosão diante de seu público
Raquel Canuto, esposa de Renato e figura emblemática do jiu-jitsu feminino, estava em casa diante de seu público de Las Vegas. Contra Mo Black (Colorado Springs), ela entregou uma performance eletrizante que fez o público ficar de pé.

A luta começou em pé com Mo Black tentando impor sua luta, mas Raquel conseguiu levar a luta para o chão. Em uma transição rápida, ela garantiu uma knee bar (chave de joelho) instantânea que forçou Mo Black a desistir. A finalização de Raquel ilustra perfeitamente o uso tático do “Bowl”: Mo Black, presa contra a inclinação curvada, não conseguiu executar as roladas defensivas habituais, se encontrando presa em uma posição inescapável.
William Tackett: espetáculo e eficácia
O espetáculo estava garantido com William Tackett contra Kyle Chambers. Nesta luta revanche de uma derrota sofrida há 6 anos, William mostrou uma versão completamente diferente de si mesmo. Acrobático e espetacular, ele levou a luta para o chão com uma facilidade desconcertante, passando a guarda “como se fosse nada” antes de finalizar com um rear naked choke no primeiro round.

“Ele é muito acrobático, faz o espetáculo (é isso que queremos ver 100%!)” – William entendeu perfeitamente o que o público esperava, misturando técnica pura e entretenimento.
Até agora, sem dúvida a mais bela luta da noite!
Mason Fowler vs David Garmmo: nascimento de um campeão
Na luta co-main event pelo título inaugural light heavyweight, Mason Fowler conquistou a vitória contra David Garmmo no que foi uma das lutas mais esperadas da noite.
A luta começou com os dois homens se avaliando em pé. Fowler rapidamente encontrou a abertura com um ankle pick eficaz após um front headlock, tomando imediatamente o controle no chão. Sua transição para as costas foi de uma fluidez notável! Uma vez a posição garantida, bastaram alguns segundos para que seu rear naked choke forçasse Garmmo a desistir no primeiro round.

Esta vitória coroa uma carreira exemplar para Fowler, eleito atleta masculino Fight Pass do ano de 2020, e o torna o primeiro campeão light heavyweight do UFC BJJ.
Andrew Tackett: uma máquina implacável
Mas foi Andrew Tackett quem realmente roubou a cena no main event. Contra Renato Canuto, o campeão em título entregou uma luta de intensidade rara que ficará gravada nas memórias.
O ritmo foi frenético desde os primeiros segundos: double leg takedown de Canuto, reversão milimétrica de Andrew, trocas de posições em um ritmo infernal. “Andrew é uma bola de energia/cardio, ele é imparável e incontrolável!”

A diferença se fez no condicionamento físico. Enquanto Canuto começava a mostrar sinais de cansaço no final da luta, Andrew manteve sua intensidade até conseguir a finalização por D’Arce choke no primeiro round. Uma performance que confirma que aos apenas 22 anos, ele pode muito bem dominar esta divisão por longos anos.
Andrew Tackett: um fenômeno midiático em ascensão
Além de suas qualidades esportivas, Andrew Tackett encarna perfeitamente a nova geração de atletas de grappling. Desde sua vitória no UFC BJJ 1, ele ganhou mais de 20.000 seguidores nas redes sociais. Isso demonstra o impacto midiático desta plataforma.
Como ele mesmo explica, agora é reconhecido em postos de gasolina, não pelo grappling em si, mas graças à organização que o representa.

Esta nova dimensão midiática transforma o status dos grapplers, oferecendo-lhes uma visibilidade até então reservada aos lutadores de MMA. O UFC BJJ consegue assim cumprir sua aposta de criar verdadeiras estrelas do jiu-jitsu.
A inovação do “Bowl” – esta superfície curvada substituindo o tatame tradicional plano – continua a revolucionar as estratégias. Esta superfície única, com sua inclinação primeiro gradual depois uma curva mais pronunciada, transforma fundamentalmente a dinâmica das lutas.
Vários exemplos concretos do UFC BJJ 2 ilustram seu impacto:
O efeito “armadilha” ofensiva: Durante a luta Raquel Canuto vs Mo Black, a superfície impediu Mo Black de executar suas roladas defensivas habituais, forçando-a a sofrer a knee bar sem possibilidade de escape.
A vantagem da passagem de guarda: William Tackett usou a inclinação para tornar impossível para Kyle Chambers recuperar sua guarda fechada. Em um tatame plano, Chambers poderia facilmente trazer suas pernas de volta.
A eliminação do “stalling”: A superfície força um movimento constante. Impossível ficar estático em uma posição, a gravidade e a curva empurram naturalmente para a ação.
Esta superfície única força os atletas a adaptar seu jogo e reduz fortemente as fases estáticas, criando um espetáculo permanente que explica em parte o sucesso fenomenal do UFC BJJ.
O impacto econômico e midiático do UFC BJJ 2
Um modelo econômico revolucionário
O UFC BJJ representa muito mais que uma simples competição de grappling. É uma verdadeira mudança de paradigma econômico para os atletas de jiu-jitsu. Tradicionalmente, os grapplers de alto nível têm dificuldades para viver de sua paixão, as bolsas permanecendo modestas comparadas a outros esportes de combate.
A entrada do UFC no setor muda o jogo. Os atletas se beneficiam não apenas de bolsas mais substanciais, mas principalmente de uma exposição midiática sem precedentes. O exemplo de Andrew Tackett, que multiplica as oportunidades comerciais desde sua vitória, ilustra este novo modelo.
Uma produção de nível hollywoodiano
O UFC BJJ não economiza nos recursos técnicos. A iluminação sofisticada, os múltiplos ângulos de câmera, a sonorização imersiva: tudo concorre para criar uma experiência visual digna das maiores produções esportivas. Esta atenção aos detalhes explica em parte por que o formato seduz um público que não se interessa necessariamente pelo jiu-jitsu tradicional.
O futuro do jiu-jitsu: rumo à democratização?
UFC BJJ 3: a expectativa aumenta
O próximo evento, programado para 2 de outubro de 2025, já se anuncia como um momento forte. Mikey Musumeci, campeão bantamweight e irmão de Tammy, defenderá seu título no que promete ser uma luta de gala. A organização também confirmou um quarto evento para dezembro, demonstrando sua vontade de instalar definitivamente este novo formato.
O efeito dominó internacional
O sucesso do UFC BJJ já inspira outras promoções ao redor do mundo. Esta elevação do nível de produção e midiatização poderia muito bem provocar uma corrida pela qualidade benéfica para todo o ecossistema do grappling.
Para a França, a vitória de Aurélie Le Vern abre perspectivas inéditas. Seu sucesso prova que nossos grapplers têm seu lugar no mais alto nível e deve inspirar uma nova geração de praticantes franceses a mirar na excelência internacional.
A análise técnica: o que o UFC BJJ 2 nos ensina
A passagem de pressão da nova geração
William e Andrew Tackett encarnam uma abordagem moderna da passagem de guarda, misturando pressão física e fluidez técnica. Sua capacidade de manter a intensidade conservando a precisão técnica representa a evolução natural do jogo de passador.
O mental, fator determinante
Além dos aspectos puramente técnicos, o UFC BJJ 2 sublinhou a importância crucial da preparação mental. A capacidade de Andrew Tackett de permanecer calmo no caos diante de Canuto, ou a de Aurélie Le Vern de gerenciar a pressão de representar a França, demonstram que o mental continua sendo um fator determinante no mais alto nível.
As estrelas de amanhã
A nova geração americana
Jalen Fonancier, com seus 19 anos e seus 17 anos de experiência, representa perfeitamente esta geração que só conheceu o jiu-jitsu moderno. Formado desde os 2 anos, ele domina naturalmente todos os aspectos do jogo contemporâneo, dos takedowns aos leg locks passando pelo jogo de guarda mais sofisticado.
A escola brasileira em mutação
Kennedy Maciel ilustra a evolução da escola brasileira tradicional. Filho de lenda mas forjado em um ambiente internacional, ele combina a herança técnica brasileira com as inovações modernas do grappling mundial.
Conclusão: UFC BJJ 2, um ponto de virada histórico
O UFC BJJ 2 permanecerá como o evento onde o jiu-jitsu francês entrou na história, onde os irmãos Tackett confirmaram seu status de superestrelas, e onde este esporte deu um novo passo em sua evolução rumo ao grande público.
Esta segunda edição confirma que o UFC encontrou a fórmula vencedora: espetáculo garantido, nível técnico irrepreensível, e narrativas cativantes. O “Bowl”, as novas regras, e principalmente a qualidade de produção transformam a experiência do jiu-jitsu. É agora um verdadeiro entretenimento para o grande público sem nunca sacrificar a autenticidade esportiva.
Para os praticantes franceses, a performance de Aurélie Le Vern abre um novo capítulo. Ela prova que a excelência francesa em jiu-jitsu pode brilhar na cena mundial. Ela já inspira uma nova geração de atletas tricolores, e isso não acabou!
O futuro se anuncia brilhante para esta modalidade em plena mutação. Com eventos programados até dezembro e uma audiência mundial em constante crescimento, o UFC BJJ se impõe como o futuro do grappling de alto nível.
Os dois pontos a observar são os próximos atletas, quem comporá os próximos cards de eventos?
E no que nos diz respeito, o segundo ponto foca na qualidade dos vídeos da fight week… Gostaríamos de vídeos (muito) mais longos, com (muito) mais atletas, e (muito) mais informações!
O encontro já está marcado: UFC BJJ 3, em 2 de outubro de 2025, para escrever a continuação desta história apaixonante.
