Quinta-feira 10 setembro 2026 · O jornal do JJBENFRPT

Gi ou No-Gi: qual escolher para começar no JJB?

Kimono ou rashguard? É a primeira pergunta de quem entra numa academia. A resposta de sempre, “depende dos seus objetivos”, é verdadeira mas não ajuda. Eis o que o tecido muda de verdade, e nossa resposta direta para quem está começando.

O jiu-jitsu brasileiro existe em duas formas: com kimono, o gi, e sem, o no-gi. Mesma arte marcial, mesmas posições, mesmo sistema de faixas, mas dois jogos bem diferentes uma vez no tatame. Neste artigo, explicamos concretamente o que muda ao vestir ou não o kimono, detalhamos as técnicas próprias de cada formato e, sobretudo, damos nossa recomendação para começar, baseada no que vemos nas academias, nas competições e no cenário mundial. Se você nunca pisou num tatame, comece pelo nosso guia completo do jiu-jitsu brasileiro.

O gi: jiu-jitsu com kimono

O kimono de jiu-jitsu é composto por um casaco grosso de algodão trançado, uma calça reforçada e uma faixa colorida que indica sua graduação. Herdado do judogi japonês, ele evoluiu para a luta no chão: corte mais justo, tecido mais resistente, costuras reforçadas nos pontos de tensão. Um judogi não é um kimono de jiu-jitsu, e a diferença vai muito além do corte, como explicamos no nosso comparativo BJJ vs judô.

Praticante de jiu-jitsu brasileiro de kimono no tatame

O papel do tecido no jogo

Na prática, o kimono muda tudo. Mangas, lapelas, gola, calça: cada centímetro de tecido vira um ponto de pegada. Você segura a manga do adversário para neutralizar um braço, pega a gola para preparar um estrangulamento, trava um joelho pela calça para impedir a retenção de guarda. Essa luta de pegadas torna o jogo mais lento, mais metódico e tecnicamente muito rico. Se o no-gi é um sprint, o gi é uma partida de xadrez.

É por isso que muitos professores recomendam começar de kimono. O ritmo mais calmo permite entender melhor as bases: onde colocar o quadril, como controlar a distância, por que tal posicionamento de mão muda tudo. Os erros são punidos na hora, porque seu parceiro pega sua gola e lembra que o detalhe importa.

Na competição, o kimono continua dominante. Os quatro torneios do Grand Slam da IBJJF (Europeu, Pan, Brasileiro, Mundial) são disputados de gi. Na França, quase todos os Opens da CFJJB oferecem os dois formatos no mesmo fim de semana, mas é o Campeonato Francês de Gi que serve de base para a seleção nacional, como você verá no nosso calendário de competições. Se a sua meta é a competição federativa, o kimono continua sendo o caminho principal.

Aula de jiu-jitsu brasileiro de kimono numa academia
Uma aula de kimono numa academia Gracie Barra.

O no-gi: jiu-jitsu sem kimono

No-gi é o jiu-jitsu sem kimono. Na prática, você usa rashguard (camiseta justa de lycra), bermuda de grappling ou calça de compressão. Sem tecido para segurar, sem gola, sem manga: só sobra o corpo. Os controles são feitos nos punhos, na nuca, nos tornozelos, ou por underhooks e body locks. O resultado é um jiu-jitsu mais rápido, mais escorregadio e mais explosivo.

Praticantes de jiu-jitsu sem kimono durante o treino

Esse estilo é diretamente influenciado pela luta olímpica e pelo grappling de competição. Sem tecido para frear o adversário, é preciso ser mais móvel e mais reativo, e os scrambles, aquelas fases de transição caóticas em que ninguém controla ninguém, viram o centro do jogo. É também o formato mais próximo da preparação para o MMA e da defesa pessoal, já que não depende de nenhuma roupa específica.

As técnicas próprias do grappling sem kimono

Tecnicamente, o jiu-jitsu sem kimono desenvolveu seu próprio ecossistema. As chaves de perna (heel hooks, kneebars, toe holds) ocupam um lugar central, e posições como o ashi garami ou o single leg X viraram armas de peso. Atenção, iniciantes: nas regras da IBJJF, o heel hook é proibido de kimono em todos os níveis e liberado no no-gi apenas a partir da faixa marrom adulto (desde 2021). Na maioria das academias, os professores reservam a técnica aos praticantes experientes. A lista completa das finalizações permitidas por faixa está na nossa seção de regras e quizzes.

Na competição, o ADCC é considerado o campeonato mundial de grappling, e a edição 2026 acontece justamente neste fim de semana, 12 e 13 de setembro, em Cracóvia. Mas o desenvolvimento mais marcante continua sendo a chegada do UFC BJJ em 2025: um circuito profissional, transmitido de graça no YouTube, com os melhores grapplers do planeta e já dez cards realizados. Quando se vê Aurélie Le Vern conquistar um cinturão lá, fica claro que o jiu-jitsu sem kimono virou um pilar do jiu-jitsu moderno.

Competição de grappling sem kimono no ADCC

Gi vs no-gi: as diferenças concretas

Resumimos as principais diferenças nesta tabela. É necessariamente simplificada, mas dá ao iniciante uma visão geral clara.

Com kimono (gi)Sem kimono (no-gi)
RoupaCasaco + calça de algodão + faixaRashguard + bermuda ou calça de compressão
PegadasGola, mangas, lapelas, calçaPunhos, nuca, underhooks, body lock
RitmoMais lento e estratégicoMais rápido e explosivo
Técnicas típicasEstrangulamentos de gola, guarda aranha, laço, worm guardChaves de perna, heel hooks, wrestling, front headlock
AtritoMuito atrito: controles firmesSuor: controles instáveis
Eventos principaisMundial, Pan, Europeu IBJJFADCC, UFC BJJ, Mundial No-Gi IBJJF
Ligação com o MMAIndiretaDireta
FaixaUsada no treinoMesma graduação, não usada

O que a tabela não diz

Além das diferenças técnicas, há uma diferença real de sensação. De kimono, dá para “assentar” o jogo: você toma tempo para construir um controle, montar uma sequência de ataque. É um jiu-jitsu paciente e pensado, encarnado por Roger Gracie, considerado o maior competidor de kimono da história: técnica simples, execução cirúrgica.

Sem kimono, tudo anda mais rápido. As transições são fluidas, os scrambles frequentes. Você solta uma pegada, pega outra, passa de um ataque de perna para uma pegada de costas em dois segundos. É mais instintivo e muitas vezes mais espetacular, e não é por acaso que o UFC BJJ escolheu esse formato para seus cards, como vimos de novo no UFC BJJ 10.

Há também o “fator escorregadio”. Sem kimono, o suor torna os controles cada vez mais difíceis ao longo do round: uma montada bem instalada pode ficar impossível de manter cinco minutos depois. O tecido do kimono, ao contrário, oferece atrito. As imobilizações são mais firmes, mas as finalizações do adversário também, já que a sua própria gola pode servir para estrangular você. Cada formato tem suas frustrações.

Flying heel hook em competição, vídeo do FloGrappling.

Gi ou no-gi: o que escolher para começar?

Eis a verdadeira pergunta, e em vez de responder “depende”, vamos ser francos. Nossa recomendação cabe numa linha: comece de kimono, salvo caso particular, e experimente o no-gi assim que possível. Explicamos.

Nossa recomendação: comece de kimono

Se a sua academia oferece os dois formatos, comece de kimono. Não porque seja “melhor” em si, mas porque o ritmo mais calmo vai lhe dar tempo de entender o que está acontecendo. Quem começa é inundado de informação: posições, nomes de técnicas, reflexos a construir. O kimono desacelera o jogo na medida certa para absorver tudo isso.

Treinar de kimono também ensina rigor. Cada pegada conta, cada detalhe de posicionamento importa. Às vezes é frustrante, mas é um excelente professor, e as bases que você construir, controle, pressão, paciência, vão servir depois em todos os formatos de grappling. A transição inversa, do no-gi para o kimono, costuma ser mais trabalhosa.

Iniciante de jiu-jitsu brasileiro no tatame de kimono

Quando começar sem kimono faz mais sentido

Há, porém, situações em que o no-gi é um ponto de partida melhor. Se você vem da luta olímpica ou do MMA, será uma continuação natural do que já conhece. Se o seu objetivo é a defesa pessoal, também é mais realista, ninguém anda de kimono na rua. E se a sua academia é especializada em grappling sem kimono, não há problema nenhum em começar por lá: uma boa academia de no-gi perto de casa vale mais que uma aula de kimono a quarenta minutos de distância.

Alguns iniciantes também acham o kimono desconfortável ou intimidante. Rashguard e bermuda são mais simples, mais leves, e não há nó de faixa para dominar na primeira aula. Não é um detalhe: o conforto pode ser a diferença entre quem volta e quem desiste.

Grappler sem kimono durante uma luta de jiu-jitsu

O melhor conselho: experimente os dois cedo

Talvez seja o único ponto de unanimidade no mundo do jiu-jitsu: treinar os dois formatos vai fazer de você um praticante melhor. O kimono refina a técnica, o no-gi afia os reflexos. Os maiores grapplers da história brilharam nos dois: Marcelo Garcia, cinco vezes campeão mundial IBJJF e quatro vezes vencedor do ADCC, é o exemplo mais claro, e Roger Gracie também venceu o absoluto do ADCC além dos seus dez títulos mundiais de kimono.

Capa do instrucional The Complete Butterfly Guard de Marcelo Garcia

Uma guarda que funciona nos dois formatos: a butterfly de Marcelo Garcia

Se uma guarda ilustra a passagem do kimono para o no-gi, é a guarda butterfly: ela se apoia nos ganchos e nos underhooks, não no tecido. Marcelo Garcia, campeão nos dois formatos, detalhou seu sistema em The Complete Butterfly Guard (BJJ Fanatics, em inglês), um instrucional que segue como referência para construir um jogo de guarda que funciona com ou sem kimono.

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Se a sua academia oferece várias aulas por semana, aproveite para alternar. Mesmo com uma preferência natural, essa alternância vai enriquecer sua compreensão do jiu-jitsu: você verá por que certas técnicas funcionam num formato e não no outro, e seu jogo como um todo sairá fortalecido.

Perguntas frequentes sobre gi e no-gi

As faixas contam no no-gi?

Sim. O sistema de faixas do jiu-jitsu é idêntico em qualquer formato: sua graduação continua sendo sua graduação, com ou sem kimono. Na competição sem kimono, você luta na sua categoria de faixa, e algumas finalizações continuam reservadas às graduações mais altas. A única diferença é que você não a usa fisicamente durante o treino.

O gi ou o no-gi é mais difícil?

Nem um nem outro, são difíceis de formas diferentes. O kimono exige mais paciência e precisão nas pegadas, e perdoa menos os erros de posicionamento. O no-gi exige mais mobilidade, condicionamento e velocidade de reação, e perdoa menos as pausas. A maioria dos praticantes acha mais difícil o formato que conhece menos, o que é um bom argumento para treinar os dois.

O UFC BJJ é em qual formato?

O UFC BJJ é exclusivamente no-gi, com regras próprias pensadas para o espetáculo e cinturões por categoria de peso. É hoje a maior vitrine do jiu-jitsu profissional, de graça e ao vivo no YouTube. Se ainda não conhece, assista a um replay e navegue pela nossa seção UFC BJJ.

Dá para competir nos dois formatos?

Com certeza. Quase todos os Opens da CFJJB na França oferecem os dois formatos no mesmo fim de semana, e muitos competidores se inscrevem nos dois. É uma excelente forma de testar seu jogo em contextos diferentes. Todas as datas estão no nosso calendário das competições de jiu-jitsu na França.

Que equipamento é preciso para começar?

Para o gi: um kimono de jiu-jitsu (não um judogi, os cortes são diferentes), uma faixa branca e, se quiser, um rashguard por baixo do casaco. Para o no-gi: um rashguard e uma bermuda de grappling sem bolsos nem zíper, ou uma calça de compressão. Nos dois casos, unhas cortadas e chinelo para a beira do tatame.

A opinião do BJJ-Rules

O debate entre os dois formatos é tão antigo quanto o próprio jiu-jitsu. Nunca será resolvido, e não é esse o objetivo: são duas facetas da mesma arte marcial, e cada uma vai lhe dar algo que a outra não pode. Se tivéssemos de resumir nossa posição numa frase: comece de kimono para construir suas bases, depois experimente logo o no-gi para ampliar sua visão. E se a sua academia só oferece um formato, tudo bem. O mais importante é estar no tatame, com regularidade, curiosidade e vontade de evoluir, mesmo com apenas dois treinos por semana. Então, kimono ou rashguard? Vista um ou outro e entre no jogo. Nos vemos no tatame.

Gi ou no-gi no jiu-jitsu brasileiro: Gordon Ryan em competição sem kimono
Gordon Ryan, várias vezes campeão do ADCC e referência do jiu-jitsu sem kimono.

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