Sexta-feira 11 setembro 2026 · O jornal do JJBENFRPT

Podcast On the Road: o grappling francês se torna adulto

O solo francês fica adulto: Luta Livre, escola Mendes, CFJJB… e o fim do mito do “alto nível fácil”.

No último episódio do podcast On the Road, Wilfried Sam reúne duas figuras importantes do jiu-jitsu brasileiro na França: Nicolas Renier, pioneiro da Luta Livre, múltiplas vezes classificado para o ADCC, técnico histórico do no-gi, líder do clube NRFight, e Vincent Nguyen, professor, árbitro e formador da CFJJB, revelado na Urban Team antes de se mudar para os Estados Unidos para treinar com os irmãos Mendes na abertura da Art of Jiu-Jitsu.

Uma conversa rara, franca e rica, que conta como o solo francês passou da improvisação apaixonada a uma verdadeira vontade de se estruturar. Este episódio de duas horas (primeira parte) se escuta como um afresco do JJB francês: transmissão, memória e futuro. Observação: o episódio é em francês; este artigo resume o conteúdo para a comunidade internacional.

🎧 Ouça o episódio completo (2h – Parte 1/2, em francês)

1. Uma mesa que quase nunca se vê na França

O jiu-jitsu francês costuma ser imaginado como dois mundos separados:

  • a cultura Luta Livre, sem kimono, forjada à moda antiga;
  • e a geração CFJJB, nascida do JJB estruturado, com diplomas, arbitragem e enquadramento federativo.

Diante do microfone de Wilfried Sam, essas duas visões finalmente conversam sem filtro. O resultado: uma fotografia lúcida do solo francês em 2025.

Podcast On the Road

2. “Eu chegava ao treino com um nó no estômago”

Vincent Nguyen: Urban Team, 2008 – batismo de fogo

Aos 19 anos, Vincent entra na Urban Team, em Fontenay-sous-Bois. Sem passado nos esportes de combate, mas um choque imediato: sparrings intensos, corpo destruído no dia seguinte, ambiente carregado de testosterona.

“Eu chegava ao treino com um nó no estômago.”

Mas, em vez de fugir, ele fica. E, principalmente, descobre uma vocação. Muito cedo, quase desde o início, já se vê ensinando. Essa fibra pedagógica nunca mais o abandonaria, da Califórnia à CFJJB.

Nicolas Renier: 12 anos, paixão à primeira vista pelo no-gi

Nicolas descobre a Luta Livre aos 12 anos, com Flavio Santiago, numa época em que o kimono dominava tudo. Ele descreve dois mundos:

  • de um lado, as aulas de “defesa pessoal”: rígidas, codificadas demais, sempre os mesmos cenários;
  • do outro, a Luta Livre: viva, ritmada, criativa, cada aula diferente, música, energia, finalização direta.

“Aos 12 anos, você quer aprender a finalizar, não repetir uma pegada de gola durante um ano.”

Essa virada lançaria as bases de uma cultura de solo francesa que não é apenas “JJB sem manga”.

3. A época em que a França existia no ADCC

Por que a geração Luta Livre (Renier, Husson, Broche etc.) conseguiu despontar?

  • Porque eles treinavam sem kimono todos os dias, com as regras do ADCC na cabeça e ambições internacionais reais.
  • Enquanto isso, a maioria na França fazia JJB de kimono… e “tirava o casaco” uma ou duas vezes por semana antes de uma competição no-gi.
  • Eles tinham acesso direto aos detalhes técnicos vindos do Brasil, numa época em que esses detalhes quase não circulavam.

Vincent: “Somos a última geração que pôde ir lutar no mais alto nível… sem ser de verdade do mais alto nível.”

Nicolas, por sua vez, também conta a solidão do pioneiro: sem treinador dedicado, poucos parceiros do seu nível, nenhuma equipe de apoio. Depois da segunda participação no ADCC, ele se vê literalmente sozinho no tatame: sem academia, sem estrutura ao redor.

“Eu achava que estava perto do topo. Na verdade, estava a anos-luz. Mas fazia o que podia com o que existia na França.”

Essa passagem marca o fim de uma era: aquela em que dava para “ir ao ADCC na base do improviso”. O nível mudou. As exigências mudaram. A França também.

Nicolas Renier e Vincent Nguyen no podcast On the Road

4. Califórnia 2012: antes de a AOJ virar um império

Alguns anos depois, Vincent vai trabalhar para a Venum e se instala na Califórnia, a minutos da novíssima academia dos irmãos Mendes: a Art of Jiu-Jitsu (AOJ). A AOJ acabou de abrir. As aulas têm dez alunos, não 150. O acesso é total.

“Hoje, você vai à AOJ, nunca mais vai viver aquilo.”

Ele conta as míticas sextas à noite: sessões inteiras de perguntas e respostas técnicas com Rafael Mendes, por mais de uma hora. Você chega, pergunta o que quiser, sai com soluções personalizadas. Ele também descreve os dois irmãos:

  • Rafael Mendes: o gênio instintivo. Explosivo, criativo, às vezes ilegível. “Eu via ele fazer coisas e nem entendia o que estava olhando.”
  • Guilherme Mendes: o arquiteto. Calmo, metódico, de uma clareza cirúrgica.

“Para uma pessoa normal, o Guilherme é mais fácil de acompanhar.”

Vincent insiste num ponto raramente dito: a verdadeira inteligência de Guilherme foi também conseguir existir ao lado de um irmão prodígio sem desaparecer, tornando-se estrategista, formador, construtor de academia.

5. “Pega a posição primeiro” vs “Finaliza logo”

O podcast aborda então um ponto-chave: já não existe uma única maneira de ensinar o solo hoje.

A abordagem tradicional do JJB

Lógica posicional: você passa a guarda, pega as costas, estabiliza, e só então ataca. A ideia: garantir primeiro, finalizar depois.

nicolas renier podcast On the Road

A abordagem Melqui Galvão / Luta Livre moderna

No no-gi, é quase o contrário. Nicolas descreve o que viu (e ensinou) no Brasil: sem kimono, é “80 % finalização direta”. Cria-se a abertura para a guilhotina, o katagatame, a chave de perna, em vez de esperar “a posição certa”.

Nicolas conta ter dado três aulas intensivas sobre o katagatame com Diogo Reis pouco antes do ADCC, e explica que essas armas reapareceram em luta algumas semanas depois. Não é um detalhe. Isso mostra que o no-gi moderno já não é apenas JJB sem kimono: virou um sistema de ensino por direito próprio, com suas prioridades, seu timing e sua lógica.

6. O alto nível não tem ego

“Quanto mais armas eles têm, menos chance de serem surpreendidos.”

Talvez seja a passagem mais marcante do episódio.

mica galvao podcast on the road

Nicolas explica que os melhores do mundo não protegem o ego, protegem a evolução.

  • Mica Galvão é pego por uma compressão muscular: não procura desculpa, diz “me mostra”. Depois, tenta a mesma coisa em todos os parceiros do dia.
  • Diogo Reis é pego várias vezes num Twister / controle estilo 10th Planet: a reação dele não é “isso não passa em mim”, é “me explica de novo, agora”.
  • Na França, Nicolas encontra a mesma atitude nos jovens do clube Unik (equipe de Remy Marcon): eles se recusam a sair do tatame sem entender a sequência que os pegou.
  • Vincent confirma: quando esses jovens treinam com ele, “se eu não parar, eles ficam me fazendo perguntas até meia-noite”.

Essa disponibilidade para aprender, imediatamente, sem status nem ego, é descrita como a marca da nova elite. É também uma diferença cultural em relação à “velha França do solo”, onde um título nacional às vezes bastava para alguém se autoproclamar “alto nível”.

7. A identidade do jiu-jitsu francês: herança e estruturação

O fim do episódio desliza para outro assunto: como organizar o jiu-jitsu na França sem perder a alma?

vincent nguyen nicolas renier

O ponto de Nicolas Renier

Nicolas defende preservar a Luta Livre como cultura por direito próprio. Para ele, não basta dizer “é tudo solo, é tudo igual”. O nome importa.

“Se ninguém disser ‘Luta Livre’, no dia em que a palavra sumir, a graduação some junto.”

Para ele, apagar a palavra é apagar uma história, mestres, uma linhagem técnica.

O ponto de Vincent Nguyen

Vincent expressa uma preocupação espelhada do lado do jiu-jitsu brasileiro: se amanhã uma federação maior decidir “o solo agora é nosso”, o que sobra da identidade brasileira do jiu-jitsu na França? Em outras palavras: como estruturar sem absorver? Como profissionalizar sem uniformizar tudo?

Esse debate leva naturalmente à questão dos diplomas, do papel da CFJJB, do lugar potencial da France Judo e das disputas políticas em torno da delegação oficial. É o coração da segunda parte do episódio.

8. Por que este episódio do On the Road importa

Este episódio do On the Road é mais que uma conversa entre dois veteranos. É o encontro entre:

  • a geração autodidata da Luta Livre, nascida no sem kimono puro,
  • e a geração CFJJB, que empurra rumo à estruturação (arbitragem, formações, marco legal).

Ouve-se ao mesmo tempo a história recente do solo francês e sua projeção para o futuro. E, principalmente, ouvem-se duas abordagens diferentes aceitando existir na mesma mesa, para a alegria do BJJ-Rules!

FAQ: o solo francês no On the Road

Quem são os convidados deste episódio do On the Road?

Wilfried Sam recebe Nicolas Renier, pioneiro da Luta Livre na França, múltiplas vezes classificado para o ADCC e fundador do clube NRFight, e Vincent Nguyen, professor, árbitro e formador da CFJJB, que treinou na academia Art of Jiu-Jitsu dos irmãos Mendes, na Califórnia.

Qual a diferença entre o JJB tradicional e o no-gi moderno?

Segundo o episódio, o JJB tradicional segue uma lógica posicional: passar a guarda, estabilizar, depois atacar. O no-gi moderno, herdado da Luta Livre e de escolas como a de Melqui Galvão, privilegia a finalização direta, criando a abertura sem esperar a posição perfeita. São dois sistemas de ensino por direito próprio.

Onde ouvir este episódio do podcast On the Road?

O episódio está disponível em duas partes no YouTube e nas plataformas habituais de podcast (Deezer, entre outras), em francês. A primeira parte cobre a história do solo francês; a segunda, o debate institucional entre a CFJJB e a France Judo.

🎧 Episódio completo disponível no podcast On the Road de Wilfried Sam (em francês).