Quarta-feira 19 agosto 2026 · O jornal do JJBENFRPT

Podcast On the Road: o grappling francês se torna adulto

🥋 O Grappling Francês se Torna Adulto: Luta Livre, Escola Mendes, CFJJB… e o Fim do Mito do “Alto Nível Fácil”

No último episódio do podcast On the Road, Wilfried Sam reúne duas figuras importantes do jiu-jitsu brasileiro na França:
👉 Nicolas Renier, pioneiro da Luta Livre, múltiplas participações no ADCC, técnico histórico de no-gi, clube NRFight.
👉 Vincent Guyen, professor, árbitro e formador da CFJJB, que passou pela Urban Team antes de se mudar para os Estados Unidos para treinar com os irmãos Mendes na abertura da Art of Jiu-Jitsu.

Uma discussão rara, franca e rica, que conta como o grappling francês passou da improvisação apaixonada para uma verdadeira vontade de se estruturar.

🎧 Ouça o episódio completo (2h – Parte 1/2)


1. Uma Conversa que Quase Nunca se Vê na França

O jiu-jitsu francês é frequentemente visto como dividido em dois mundos:

  • a cultura Luta Livre, no-gi, forjada à moda antiga;
  • e a geração CFJJB, oriunda do JJB estruturado, com diplomas, arbitragem e supervisão federativa.

Sob o microfone de Wilfried Sam, essas duas visões finalmente conversam sem filtros.

O resultado: uma fotografia lúcida do grappling francês em 2025.

Podcast On the Road

2. “Eu Tinha um Nó no Estômago Antes de Ir ao Treino”

Vincent Guyen: Urban Team, 2008 – Batismo de Fogo

Aos 19 anos, Vincent entra na Urban Team em Fontenay-sous-Bois.

Sem histórico em esportes de combate, mas um choque imediato: sparrings intensos, corpo quebrado no dia seguinte, atmosfera carregada de testosterona.

“Eu ia ao treino com um nó no estômago.”

Mas em vez de fugir, ele fica. E o mais importante: descobre sua vocação. Muito cedo, quase desde o início, já se vê ensinando.

Esse instinto pedagógico nunca o abandonará — da Califórnia à CFJJB.

Nicolas Renier: 12 Anos, Amor à Primeira Vista no No-Gi

Nicolas descobre a Luta Livre aos 12 anos, através de Flavio Santiago, numa época em que o kimono dominava tudo.

Ele descreve dois mundos:

  • de um lado, aulas de “defesa pessoal”, rígidas, muito codificadas, sempre os mesmos cenários;
  • do outro, a Luta Livre: viva, ritmada, criativa, cada aula diferente, música, energia, finalização direta.

“Aos 12 anos, você quer aprender a finalizar, não repetir uma pegada na gola por um ano.”

Essa mudança vai estabelecer as bases de uma cultura de grappling francesa que não é apenas “JJB sem kimono”.


3. A Época em que a França Existia no ADCC

Por que a geração Luta Livre (Renier, Husson, Broche, etc.) se destacou?

  • Porque eles treinavam no-gi todos os dias, com as regras do ADCC em mente, e ambições internacionais reais.
  • Enquanto isso, a maioria na França fazia principalmente JJB com kimono… e “tirava o kimono” uma ou duas vezes por semana antes de uma competição no-gi.
  • Eles tinham acesso direto aos detalhes técnicos vindos do Brasil, numa época em que esses detalhes circulavam muito pouco.

Vincent: “Somos a última geração que pôde competir no mais alto nível… sem realmente estar no mais alto nível.”

Nicolas também fala sobre a solidão do pioneiro: sem técnico dedicado, poucos parceiros calibrados, sem equipe estruturada.

Após sua segunda participação no ADCC, ele literalmente se encontra sozinho no tatame: sem academia, sem coaching estruturado.

“Eu achava que estava perto do topo. Na verdade, estava a anos-luz de distância. Mas fazia o que podia com o que havia na França.”

Essa passagem marca o fim de uma época: quando você podia “ir ao ADCC no estilo faça você mesmo”.

O nível mudou. As exigências mudaram. A França também.


4. Califórnia 2012: Antes da AOJ se Tornar um Império

Alguns anos depois, Vincent vai trabalhar para a Venum e se muda para a Califórnia, a poucos minutos da novíssima academia dos irmãos Mendes: Art of Jiu-Jitsu (AOJ).

A AOJ acabou de abrir. As aulas são feitas com dez alunos, não 150. O acesso é total.

“Hoje, se você for à AOJ, nunca viverá isso.”

Ele conta sobre as lendárias sextas-feiras à noite: sessões inteiras de perguntas e respostas técnicas com Rafael Mendes, por mais de uma hora. Você chega, faz as perguntas que quiser, sai com soluções personalizadas.

Ele também descreve os dois irmãos:

  • Rafael Mendes: o gênio instintivo. Explosivo, criativo, às vezes ilegível. “Eu o via fazer coisas, nem conseguia entender o que estava vendo.”
  • Guilherme Mendes: o arquiteto. Composto, metódico, de clareza cirúrgica.

“Para uma pessoa normal, Guilherme é mais fácil de seguir.”

Vincent enfatiza um ponto raramente articulado: a verdadeira inteligência de Guilherme é também ter conseguido existir ao lado de um irmão prodígio sem desaparecer, tornando-se estrategista, treinador, construtor de academia.


5. “Garanta a Posição Primeiro” vs “Finalize Imediatamente”

O podcast então aborda um ponto chave: não existe apenas uma maneira de ensinar grappling hoje.

Abordagem JJB Tradicional

Lógica posicional:

  • você passa a guarda,
  • você pega as costas,
  • você estabiliza,
  • e só então você ataca.

A ideia: garantir primeiro, finalizar depois.

Abordagem Melqui Galvão / Luta Livre Moderna

No no-gi, é quase o oposto. Nicolas descreve o que viu (e ensinou) no Brasil:

  • no no-gi: “80% finalização direta”.
  • você cria a abertura para a guilhotina, o katagatame, a chave de perna, em vez de esperar “a posição certa”.

Nicolas conta que deu três aulas intensivas sobre o katagatame com Diogo Reis pouco antes do ADCC, e explica que essas armas reapareceram nas lutas algumas semanas depois.

Isso não é um detalhe. Mostra que o no-gi moderno não é mais apenas JJB sem kimono: tornou-se um sistema de ensino completo, com suas próprias prioridades, timing e lógica.


6. O Alto Nível Não Tem Ego

“Quanto mais armas eles têm, menos chances de serem surpreendidos.”

Esta é talvez a passagem mais marcante do episódio.

mica galvao podcast on the road

Nicolas explica que os melhores não protegem seu ego, protegem seu progresso.

  • Mica Galvão é pego numa compressão muscular: ele não procura desculpas, diz “Me mostra”. Depois tenta a mesma coisa em todos os seus parceiros de treino do dia.
  • Diogo Reis é pego várias vezes num Twister / controle estilo 10th Planet: sua reação não é “isso não funciona em mim”, é “me explica de novo agora”.
  • Nicolas encontra a mesma mentalidade entre jovens franceses do clube Unik (time de Remy Marcon): “Me explica agora. Não quero ser pego com isso numa final.”
  • Vincent confirma: quando esses jovens vão à sua academia ou à Unique, “se eu não os parar, vão me fazer perguntas até meia-noite”.

Essa disposição para aprender, imediatamente, sem status ou ego, é descrita como a marca da nova elite.

É também uma diferença cultural em relação ao “velho grappling francês”, onde um status nacional às vezes era suficiente para se autoproclamar “alto nível”.


7. A Identidade do Jiu-Jitsu Francês: Entre Herança e Estruturação

O final do episódio passa para outro tema: como organizar o jiu-jitsu na França sem perder sua alma?

O Ponto de Nicolas Renier

Nicolas defende a importância de preservar a Luta Livre como cultura distinta. Para ele, não basta dizer “é tudo grappling, é a mesma coisa”. O nome importa.

“Se ninguém diz ‘Luta Livre’, no dia em que a palavra desaparecer, a graduação desaparece junto.”

Para ele, apagar a palavra significa apagar uma história, mestres, uma linhagem técnica.

O Ponto de Vincent Guyen

Vincent expressa uma preocupação espelhada do lado do jiu-jitsu brasileiro: se amanhã uma federação maior decidir “o grappling é conosco agora”, o que resta da identidade brasileira do jiu-jitsu na França?

Em outras palavras: como estruturar sem absorver? Como profissionalizar sem uniformizar tudo?

Esse debate leva naturalmente a questões sobre diplomas, o papel da CFJJB, o lugar potencial do France Judo, e questões políticas em torno da delegação oficial. Este é o coração da segunda parte do episódio.

(O restante do podcast entra nessas questões: diplomas obrigatórios, supervisão legal, quem tem legitimidade para ensinar e conceder graduações, etc.)


8. Por Que Este Episódio Importa

Este episódio do On the Road é mais do que uma conversa entre dois veteranos.

É o encontro entre:

  • a geração autodidata da Luta Livre, nascida no no-gi puro,
  • e a geração CFJJB, que empurra para a estruturação (arbitragem, formações, marco legal).

Ouvimos tanto a história recente do grappling francês quanto sua projeção para o futuro.

E o mais importante: ouvimos duas abordagens diferentes aceitando existir na mesma mesa.

➡️ Episódio completo disponível no podcast On the Road de Wilfried Sam.