Quinta-feira 10 setembro 2026 · O jornal do JJBENFRPT

On the Road Parte 2: ruptura CFJJB–France Judo explicada

Na segunda parte do podcast On the Road, Wilfried Sam leva a conversa com Nicolas Renier e Vincent Nguyen para o terreno institucional: CFJJB vs France Judo, equivalências de faixas, identidade do JJB e da Luta Livre.

Depois da primeira parte, que explorou a evolução técnica do solo francês, esta sequência aborda a ruptura e suas consequências para o futuro da modalidade. Uma troca rara, direta e necessária. Observação: o episódio é em francês; este artigo resume o conteúdo para a comunidade internacional.

🎧 Ouça o episódio completo (Parte 2/2, em francês)

1. Quando o debate vira política

Pergunta simples, questão enorme: por que a CFJJB saiu da France Judo?

Se a primeira parte do podcast explorava a memória e a técnica, esta segunda metade muda completamente de registro. Entramos no debate institucional que agita a comunidade há semanas: quem carrega a identidade do JJB na França, e em que condições? Wilfried Sam faz as perguntas que ninguém ousa fazer publicamente. Nicolas Renier e Vincent Nguyen respondem sem rodeios!

2. CFJJB vs France Judo: anatomia de uma ruptura

2021: a convenção que devia mudar tudo

Vincent Nguyen refaz o histórico. Em 2021, a CFJJB deixa a FFST (uma federação de esporte trabalhista que trazia pouco) e assina com a France Judo uma convenção garantindo autonomia e independência.

A ideia: aproveitar infraestruturas (ginásios, peso político) e ferramentas de estruturação (em especial o diploma CQP, para profissionalizar o ensino) sem tocar na identidade do jiu-jitsu brasileiro. Vincent resume o equilíbrio buscado: enquanto a contrapartida for financeira e a identidade do esporte for preservada, a colaboração faz sentido.

Abril de 2024: a virada brutal

Em abril de 2024, a France Judo oferece a David Giorsetti o cargo de diretor-geral do jujitsu. A missão: usar os métodos que permitiram o crescimento da CFJJB para estruturar todas as disciplinas “jujitsu” (judô jujitsu, duo fighting etc.).

Mas, segundo Vincent, decisões são tomadas muito rapidamente sem consultar David, e sem sequer informá-lo antes. Entre elas:

  • Uma equivalência de faixas entre judô e “jujitsu” (todas as disciplinas misturadas)
  • Um diploma único de “jujitsu”, sem distinguir o jiu-jitsu brasileiro
  • A possibilidade de um professor de judô jujitsu ensinar JJB sem formação específica

Para Vincent, essas decisões equivalem a negar a singularidade do jiu-jitsu brasileiro como disciplina internacional distinta, com seu próprio sistema de faixas, suas regras e sua história. Aceitar isso é aceitar diluir a identidade do esporte numa “família jujitsu” genérica.

Vincent Nguyen no podcast On the Road

Diante dessas decisões impostas, David Giorsetti escolhe deixar a France Judo. Vincent explica que essa escolha era pessoalmente menos confortável para David, mas que ele tinha uma responsabilidade com a comunidade do JJB, que esperava dele a defesa da identidade do esporte.

A CFJJB se filia então à ASPTT, federação delegatária que garante sua independência e permite continuar emitindo diplomas como o CQP.

Duas leituras da ruptura: Vincent vê uma escolha necessária para proteger a identidade do JJB. Nicolas acha que talvez fosse melhor ficar dentro para negociar, dado o peso político da France Judo.

3. Nicolas encontra a France Judo: a outra versão dos fatos

Nicolas Renier ocupa uma posição única neste debate: fora das duas estruturas, ele foi mesmo assim convidado por David Inquel, vice-presidente da France Judo, para conversar depois de publicar vídeos sobre o assunto.

O que ele aprendeu nessa conversa

Segundo Nicolas, a France Judo planeja separar as graduações de judô e jujitsu a partir de março de 2025 (ou talvez já esteja feito). David Inquel teria explicado querer preservar a diferença entre os esportes, reconhecendo que uma equivalência automática de mão única não seria justa.

O argumento relatado: um praticante de JJB não viraria faixa-preta de judô em alguns fins de semana, então por que o inverso seria aceitável?

A leitura estratégica de Nicolas

Apesar dessas conversas, ele continua convencido de que a France Judo detém o poder político. De fora, ele acha que talvez fosse mais estratégico ficar dentro e negociar aos poucos, em vez de sair por completo.

Vincent responde que essa estratégia seria ideal, mas simplesmente não era possível diante das decisões tomadas sem consulta. David não podia ficar numa estrutura onde já não tinha voz em assuntos fundamentais para a identidade do esporte.

A questão da comunicação

Nicolas aproveita o podcast para criticar também a comunicação da CFJJB em torno da ruptura: uma simples mensagem no Instagram apontando para uma carta no site, sem uma verdadeira fala pública construída.

Ele acredita que os praticantes precisam entender claramente o que aconteceu e qual é o projeto de David Giorsetti para o futuro, para poder se posicionar com conhecimento de causa.

Vincent ouve a crítica, mas pondera: a CFJJB é feita de gente de tatame, não de comunicadores. Sobrecarregados pelo trabalho de estruturação (formações, competições, desenvolvimento), eles preferem agir a passar o tempo administrando polêmicas nas redes sociais.

4. Faixa-preta de judô ≠ faixa-azul de JJB: esclarecimento necessário

Um boato circula com frequência: “A CFJJB considera que uma faixa-preta de judô equivale a uma faixa-azul de JJB.” Vincent esclarece: é falso.

O que os regulamentos dizem de verdade

Os regulamentos da CFJJB e da IBJJF estabelecem que um faixa-preta de judô não pode competir como faixa-branca numa competição de jiu-jitsu brasileiro. É uma medida de segurança: evitar que um judoca experiente machuque um iniciante completo, que não sabe cair nem se defender no chão.

Mas isso não significa atribuir automaticamente uma graduação de JJB a essa pessoa. Na academia, um judoca faixa-preta começa como faixa-branca de JJB e progride normalmente, conforme a avaliação do seu professor de jiu-jitsu brasileiro.

CAF vs CQP: dois diplomas, duas lógicas

Vincent explica em seguida a diferença entre os dois diplomas de ensino. O CAF (certificado de instrutor federal) é acessível a partir da faixa-azul e permite ensinar como voluntário. O objetivo: permitir que praticantes relativamente recentes ajudem seu professor, abram uma pequena turma onde não existe nenhuma, ou conduzam aulas infantis. A pessoa usa sua faixa-azul, então seu nível é imediatamente identificável.

O CQP (certificado de qualificação profissional) é acessível a partir da faixa-marrom (cerca de 8 anos de prática) e permite ensinar profissionalmente, ou seja, ser remunerado. A diferença é clara: no primeiro caso, é voluntariado com nível visível, sem concorrência com os profissionais. No segundo, é um verdadeiro reconhecimento de expertise após anos de tatame.

A questão de fundo: preservar a singularidade do jiu-jitsu brasileiro como disciplina com seus próprios critérios de progressão e de ensino, sem uniformização com outras disciplinas “jujitsu”.

5. Luta Livre: Nicolas bate forte

O podcast volta então à Luta Livre, e Nicolas Renier não mede as palavras.

Por que tão poucos representantes franceses?

Wilfried faz a pergunta: por que Nicolas é hoje quase o único na França a reivindicar abertamente a Luta Livre?

A resposta não perdoa: quem abandonou o nome “Luta Livre” para dizer “grappling” ou outros termos genéricos é, segundo ele, covarde que abandonou o barco por comodidade. Ele chega a dizer que essas pessoas não têm honra.

Seu argumento: se todo mundo abandona o nome, as graduações acabam não valendo mais nada. Abandonar a identidade cultural e técnica da Luta Livre é dar um tiro no próprio pé coletivamente.

O acompanhamento: 55 clubes, meta de 150 professores

Diante desse quadro, Nicolas criou um acompanhamento para professores de Luta Livre isolados ou em formação. Não é um diploma estatal, mas um coaching premium que oferece uma metodologia completa de ensino (inspirada no que ele viu no Brasil e nos Estados Unidos), uma programação técnica por faixa, trocas regulares entre professores e um acompanhamento das graduações.

Hoje, 55 clubes participam. Meta: 150 professores formados em 3 anos. Vincent elogia a iniciativa, lembrando que os professores realmente precisam de apoio, não só na técnica, mas também no desenvolvimento do clube (captação e retenção de alunos).

Nicolas Renier fala de Luta Livre no On the Road

6. CFJJB sob fogo: respostas às críticas

Wilfried reuniu nas redes sociais as críticas mais frequentes contra a CFJJB. Ele as apresenta a Vincent no formato verdadeiro ou falso.

Verdadeiro ou falso: “A CFJJB é uma máfia”

Vincent desmonta a acusação explicando que a CFJJB tem, de fato, um padrão de qualidade alto e uma presença nacional forte (competições todo fim de semana pelos quatro cantos da França), o que pode dar a impressão de esmagar as organizações menores.

Mas ele insiste: as portas estão abertas a todos que queiram contribuir com suas competências. Ele mesmo começou oferecendo seus serviços sem pedir nada em troca. O problema é que muitos criticam de fora sem nunca oferecer ajuda.

Verdadeiro ou falso: “Vocês estão enriquecendo”

Vincent lembra que a CFJJB é uma instituição com auditor de contas e um quadro legal rígido. O enriquecimento pessoal dos dirigentes é impossível sem controle.

Ele reformula a verdadeira pergunta: por que as competições têm certo custo? E compara com a IBJJF (130 € no kimono, cerca de 200 € para kimono + no-gi) contra a CFJJB (50 € uma disciplina, 90 € as duas, 30 € para crianças).

Os custos se explicam: arbitragem de qualidade (formação, deslocamentos, remuneração para não perder os melhores árbitros), aluguel de ginásios, medalhas, equipe de logística. Vincent destaca em especial que as crianças são arbitradas por gente que apita no campeonato mundial: esse nível de exigência tem um preço.

Verdadeiro ou falso: “A CFJJB é misógina”

Vincent lista as iniciativas concretas: open mats femininos, igualdade total de premiações entre homens e mulheres, comissão dedicada à promoção da prática feminina, e a participação de Laurence Cousin (campeã mundial) nas seletivas nacionais.

Ele reconhece que ainda há poucas mulheres nas seleções, mas explica que isso reflete uma prática hoje dominada de forma esmagadora pelos homens. O desafio: desenvolver primeiro a prática feminina no nível recreativo para, depois, ver surgir mais competidoras de alto nível.

Verdadeiro ou falso: “Vocês favorecem a Infinity”

Vincent desmonta essa acusação com um argumento incontestável: ele é o responsável pela arbitragem, e seu próprio coletivo (WAO) concorre diretamente com a Infinity. Por que ele favoreceria um concorrente?

E, principalmente: Mathias Jardin, que trabalha para a Infinity, é o treinador da seleção nacional. Mesmo assim, nenhum membro da Infinity aparece na seleção nacional. Se o favoritismo existisse, esse seria o momento ideal para exercê-lo.

A mensagem de fundo: além das polêmicas de redes sociais, Vincent convida quem tem críticas construtivas a vir conversar diretamente e, sobretudo, a contribuir em vez de criticar de longe.

7. Comunicação e diálogo: sair das “conversas de bar”

O debate volta à importância da comunicação e do diálogo direto. Nicolas insiste que os praticantes precisam entender claramente a situação e o projeto da CFJJB para se posicionar com conhecimento de causa.

Vincent responde que prefere passar o tempo fazendo as coisas avançarem a responder críticas sem fundamento nas redes sociais. Por outro lado, quando alguém o procura diretamente para conversar, ele dedica tempo para explicar, e na maioria das vezes as pessoas entendem.

Nicolas Renier conclui dizendo que, mesmo sendo “conversas de bar”, são também praticantes de JJB que merecem ser ouvidos.

Podcast On the Road – mesa redonda CFJJB, France Judo, JJB e Luta Livre

8. O futuro do solo francês: duas visões complementares

Para encerrar, Wilfried pergunta a Nicolas e Vincent como eles veem o futuro do solo francês.

Nicolas: o tatame como espaço social único

Nicolas faz uma defesa vibrante do jiu-jitsu brasileiro e da Luta Livre como espaços incomparáveis de mistura social. No tatame, um advogado treina com um desempregado, um estudante com um médico. Todas as origens sociais, todas as cores de pele, todas as religiões se encontram e evoluem juntas.

Ele também destaca os valores educativos do esporte: aprender a nunca desistir, mesmo nas piores posições, sair de situações desconfortáveis pela técnica e pela resiliência mental. Sua esperança: que um dia JJB e Luta Livre trabalhem juntos, talvez numa mesma federação, preservando suas identidades.

Vincent: formar a geração que vem aí

Vincent se projeta no futuro esportivo e educativo. Ele vê um belo horizonte ao observar o trabalho notável dos clubes com os jovens. Para ele, a formação de campeões passa primeiro por um ensino de qualidade desde a infância.

Ele insiste também na formação dos futuros professores, que serão os melhores representantes da modalidade. A questão é séria: o que esses novos professores vão transmitir? Sua ambição: fazer do jiu-jitsu brasileiro o esporte de combate mais praticado do mundo.

Ele termina com uma nota filosófica emprestada do jiu-jitsu: um menor pode vencer um maior. Da mesma forma, uma organização menor pode ganhar de uma maior se trabalhar com inteligência.

FAQ: CFJJB, France Judo e as graduações

Por que a CFJJB saiu da France Judo?

Segundo Vincent Nguyen no podcast, a convenção assinada em 2021 garantia a autonomia da CFJJB. Em abril de 2024, decisões tomadas sem consulta (equivalência de faixas judô/jujitsu, diploma único, ensino do JJB sem formação específica) colocaram em xeque a identidade do jiu-jitsu brasileiro. David Giorsetti deixou então a France Judo, e a CFJJB se filiou à ASPTT.

Uma faixa-preta de judô vale uma faixa-azul de JJB?

Não. Os regulamentos da CFJJB e da IBJJF apenas impedem que um faixa-preta de judô compita como faixa-branca em competições de JJB, por segurança. Na academia, um judoca começa como faixa-branca e progride normalmente, conforme a avaliação do seu professor de jiu-jitsu brasileiro.

Qual a diferença entre o CAF e o CQP?

O CAF (certificado de instrutor federal) é acessível a partir da faixa-azul e permite ensinar como voluntário, por exemplo ajudando um professor ou conduzindo aulas infantis. O CQP (certificado de qualificação profissional) é acessível a partir da faixa-marrom e permite ensinar profissionalmente, com remuneração.

Conclusão: crescer sem se renegar

Esta segunda parte do podcast On the Road encara de frente os assuntos delicados: ruptura institucional, identidade das disciplinas, críticas públicas, visão de futuro.

O que fica: duas visões que se completam mais do que se opõem. Nicolas e Vincent compartilham o mesmo objetivo: fazer o solo francês crescer sem desnaturar o que o torna único. O solo francês está numa encruzilhada. O que vem a seguir dependerá da capacidade de cada um de continuar dialogando, no tatame e fora dele.

🎧 Ouça o episódio completo (Parte 2/2, em francês)