Na segunda parte do podcast On the Road, Wilfried Sam direciona a conversa com Nicolas Renier e Vincent Nguyen para o terreno institucional: CFJJB vs France Judo, equivalências de faixas, e a identidade do JJB e da Luta Livre.
Após a primeira parte, que explorou a evolução técnica do grappling francês, esta continuação aborda a ruptura e suas consequências para o futuro da disciplina.
Uma troca rara, direta e necessária.
🎧 Ouça o episódio completo (Parte 2/2)
1. Quando o Debate se Torna Político
Pergunta simples, aposta alta: por que a CFJJB deixou France Judo?
Se a primeira parte do podcast explorou memória e técnica, esta segunda metade muda radicalmente de tom. Entramos no debate institucional que vem agitando a comunidade há semanas: quem carrega a identidade do JJB na França, e sob quais condições?
Wilfried Sam faz as perguntas que ninguém ousa fazer publicamente. Nicolas Renier e Vincent Nguyen respondem sem rodeios.
2. CFJJB vs France Judo: Anatomia de uma Ruptura
📜 2021: O Acordo que Deveria Mudar Tudo
Vincent Nguyen traça o histórico. Em 2021, a CFJJB deixa a FFST (Federação Francesa do Esporte dos Trabalhadores), que não oferecia muito, e assina um acordo com France Judo garantindo autonomia e independência.
A ideia: beneficiar-se de infraestrutura (instalações, alcance político) e ferramentas de estruturação (incluindo o CQP para profissionalizar o ensino) sem comprometer a identidade do jiu-jitsu brasileiro.
Vincent resume o equilíbrio buscado: enquanto a contrapartida permanecer financeira e a identidade do esporte for preservada, a colaboração faz sentido.
🔥 Abril de 2024: A Virada Brutal
Em abril de 2024, France Judo oferece a David Giorsetti um cargo de diretor geral do jujitsu. Missão: usar os métodos que permitiram o desenvolvimento da CFJJB para estruturar todas as disciplinas “jujitsu” (judo jujitsu, duo fighting, etc.).
Mas segundo Vincent, decisões são tomadas muito rapidamente sem consultar David, ou mesmo informá-lo previamente. Entre elas:
- Equivalência de faixas entre judo e “jujitsu” (todas as disciplinas combinadas)
- Um diploma único “jujitsu” não distinguindo mais o jiu-jitsu brasileiro
- A possibilidade de um professor de judo jujitsu ensinar JJB sem treinamento específico
Para Vincent, essas decisões equivalem a negar a singularidade do jiu-jitsu brasileiro como disciplina internacional distinta, com seu próprio sistema de faixas, regras e história. Aceitar isso significa aceitar a diluição da identidade do esporte em uma “família jujitsu” genérica.
Diante dessas decisões impostas, David Giorsetti escolhe deixar France Judo. Vincent explica que essa escolha foi pessoalmente menos confortável para David, mas que ele tinha uma responsabilidade com a comunidade do JJB que esperava que ele defendesse a identidade do esporte.
A CFJJB então se afilia à ASPTT, uma federação delegatária que garante sua independência e permite continuar emitindo diplomas como o CQP.
Duas leituras da ruptura: Vincent vê isso como uma escolha necessária para proteger a identidade do JJB. Nicolas pensa que talvez tivesse sido melhor ficar dentro para negociar, dado o peso político do France Judo.
3. Nicolas Encontra France Judo: O Outro Lado da História
Nicolas Renier ocupa uma posição única neste debate: fora de ambas as estruturas, ele foi convidado por David Inquel, vice-presidente do France Judo, para conversar após publicar vídeos sobre o assunto.
O Que Ele Aprendeu com Esta Conversa
Segundo Nicolas, France Judo planeja separar as faixas de judo e jujitsu a partir de março de 2025 (ou talvez já esteja feito). David Inquel teria explicado querer preservar a diferença entre os esportes, reconhecendo que uma equivalência automática unilateral não seria justa.
O argumento relatado: um praticante de JJB não poderia se tornar faixa preta de judo em alguns fins de semana, então por que o inverso seria aceitável?
A Posição Estratégica de Nicolas
Apesar dessas discussões, ele permanece convencido de que France Judo detém o poder político. De fora, ele pensa que talvez tivesse sido mais estratégico ficar dentro para negociar gradualmente, em vez de sair completamente.
Vincent responde que essa estratégia teria sido ideal, mas simplesmente não era possível dadas as decisões tomadas sem consulta. David não poderia ficar em uma estrutura onde não tinha mais voz em questões fundamentais para a identidade do esporte.
💬 A Questão da Comunicação
Nicolas também usa o podcast para criticar a comunicação da CFJJB sobre esta ruptura: uma simples mensagem no Instagram apontando para uma carta no site, sem declaração pública realmente estruturada.
Ele acredita que os praticantes precisam entender claramente o que aconteceu e qual é o plano de David Giorsetti para o futuro, para poderem tomar uma posição com pleno conhecimento.
Vincent ouve a crítica mas pondera: a CFJJB é composta por pessoas de campo, não comunicadores. Sobrecarregados pelo trabalho de estruturação (treinamentos, competições, desenvolvimento), eles preferem agir a passar o tempo nas redes sociais gerenciando controvérsias.
4. Faixa Preta de Judo ≠ Faixa Azul de JJB: Esclarecimento Necessário
Um boato circula regularmente: “A CFJJB considera que uma faixa preta de judo equivale a uma faixa azul de JJB.”
Vincent esclarece: isso é falso.
O Que as Regras Realmente Dizem
Os regulamentos da CFJJB e da IBJJF estipulam que uma faixa preta de judo não pode competir na faixa branca em uma competição de jiu-jitsu brasileiro. É uma medida de segurança: evitar que um judoca experiente machuque um iniciante completo que não sabe cair nem se defender no solo.
Mas isso não significa que uma faixa de JJB seja automaticamente atribuída a essa pessoa. Na academia, uma faixa preta de judô começa como faixa branca de JJB. Depois, ela progride normalmente conforme a avaliação do professor de jiu-jitsu brasileiro.
CAF vs CQP: Dois Diplomas, Duas Lógicas
Vincent então explica a diferença entre dois tipos de diplomas de ensino:
O CAF (Certificado de Animador Federal) é acessível a partir da faixa azul e permite ensino voluntário. O objetivo: permitir que praticantes relativamente recentes ajudem seu professor, abram uma pequena seção onde não há, ou supervisionem aulas infantis. A pessoa usa sua faixa azul, então seu nível é imediatamente identificável.
O CQP (Certificado de Qualificação Profissional) é acessível a partir da faixa marrom (cerca de 8 anos de prática) e permite ensino profissional, ou seja, ser remunerado.
A diferença é clara: no primeiro caso, é trabalho voluntário com nível exibido (faixa azul visível), sem competir com profissionais. No segundo, é reconhecimento real de expertise após anos de prática.
A questão de fundo: preservar a singularidade do jiu-jitsu brasileiro como disciplina com seus próprios critérios de progressão e ensino, sem uniformização com outras disciplinas “jujitsu”.
5. Luta Livre: Nicolas Não Poupa Palavras
O podcast então retorna à Luta Livre, e Nicolas Renier não mede palavras.
Por Que Tão Poucos Representantes Franceses?
Wilfried faz a pergunta: por que Nicolas é quase o único na França a reivindicar abertamente a Luta Livre hoje?
A resposta é inequívoca: aqueles que abandonaram o nome “Luta Livre” para dizer “grappling” ou outros termos genéricos são, segundo ele, covardes que abandonaram o barco por conveniência. Ele vai até a dizer que não têm honra.
Seu argumento: se todos abandonam o nome, as faixas acabam sem valor. Abandonar a identidade cultural e técnica da Luta Livre significa coletivamente atirar no próprio pé.
O Programa de Mentoria: 55 Academias, Meta de 150 Professores
Diante dessa constatação, Nicolas desenvolveu um programa de mentoria para professores de Luta Livre isolados ou aspirantes. Não é um diploma estatal, mas coaching premium que oferece metodologia de ensino completa (inspirada no que viu no Brasil e nos Estados Unidos), programação técnica por faixa, trocas regulares entre professores e acompanhamento de graduações.
Hoje, 55 academias estão engajadas. Meta: 150 professores treinados em 3 anos.
Vincent elogia esta iniciativa, acreditando que os professores de fato precisam de apoio, não apenas na técnica mas também no desenvolvimento de sua academia (aquisição e retenção de praticantes).

6. CFJJB Sob Fogo: Respondendo às Críticas
Wilfried coletou as críticas mais frequentes contra a CFJJB nas redes sociais. Ele as apresenta a Vincent em formato verdadeiro/falso.
❌ “A CFJJB é uma máfia”
Vincent desmonta esta acusação explicando que a CFJJB de fato tem um padrão de qualidade elevado e forte presença nacional (competições todo fim de semana por toda a França), o que pode dar a impressão de esmagar organizações menores.
Mas ele insiste: as portas estão abertas para todos que querem contribuir com suas habilidades. Ele mesmo começou oferecendo seus serviços sem pedir nada em troca. O problema é que muitos criticam de fora sem nunca oferecer sua ajuda.
❌ “Vocês estão enriquecendo”
Vincent lembra que a CFJJB é uma instituição com auditor e estrutura legal rígida. O enriquecimento pessoal dos dirigentes é impossível sem supervisão.
Ele reformula a pergunta real: por que as competições custam um certo valor? E ele compara com a IBJJF (€130 para gi, cerca de €200 para gi + no-gi) versus CFJJB (€50 uma disciplina, €90 ambas, €30 crianças).
Os custos se explicam: arbitragem de qualidade (treinamento, viagens, remuneração para não perder os melhores árbitros), aluguel de instalações, medalhas, equipe logística. Vincent enfatiza particularmente que as crianças são arbitradas por pessoas que oficiam em campeonatos mundiais — este nível de exigência tem um preço.
❌ “A CFJJB é misógina”
Vincent lista iniciativas concretas: open mats femininos, igualdade total de prêmios entre homens e mulheres, comissão dedicada à promoção da prática feminina, e envolvimento de Laurence Cousin (campeã mundial) nas seleções nacionais.
Ele reconhece que ainda há poucas mulheres nas seleções, mas explica que isso reflete uma prática atualmente dominada de forma esmagadora por homens. O desafio: primeiro desenvolver a prática feminina no nível recreativo para então ver surgir mais competidoras de alto nível.
❌ “Vocês favorecem Infinity”
Vincent desmonta esta acusação com um argumento irrefutável: ele é responsável pela arbitragem, seu próprio coletivo (WAO) está em competição direta com Infinity. Por que ele favoreceria um concorrente?
E especialmente: Mathias Jardin, que trabalha para Infinity, é o selecionador da equipe nacional. No entanto, nenhum membro do Infinity está na seleção nacional. Se o favoritismo existisse, este seria o momento ideal para exercê-lo.
A mensagem de fundo: além das polêmicas de redes sociais, Vincent chama aqueles com críticas construtivas a virem discutir diretamente, e especialmente a contribuir em vez de criticar de longe.
7. Comunicação e Diálogo: Além das “Conversas de Bar”
O debate retorna à importância da comunicação e do diálogo direto.
Nicolas insiste na necessidade dos praticantes de entender claramente a situação e o projeto defendido pela CFJJB para poderem tomar posição com pleno conhecimento.
Vincent responde que prefere gastar seu tempo fazendo as coisas avançarem a responder críticas sem fundamento jogadas nas redes sociais. No entanto, quando alguém vem vê-lo diretamente para conversar, ele tira o tempo para explicar, e na maioria das vezes, as pessoas entendem.
Nicolas Renier conclui dizendo que mesmo sendo “conversas de bar”, também são praticantes de JJB que precisam ser ouvidos.

8. O Futuro do Grappling Francês: Duas Visões Complementares
Para concluir, Wilfried pergunta a Nicolas e Vincent como eles veem o futuro do grappling francês.
Nicolas: O Tatame Como Espaço Social Único
Nicolas faz um apelo vibrante pelo jiu-jitsu brasileiro e a Luta Livre como espaços de diversidade social incomparáveis. No tatame, um advogado treina com um desempregado, um estudante com um médico. Todas as classes sociais, todas as cores de pele, todas as religiões se encontram e progridem juntas.
Ele também insiste nos valores educacionais do esporte: aprender a nunca desistir, mesmo nas piores posições, escapar de situações desconfortáveis através da técnica e resiliência mental.
Sua esperança: que um dia, JJB e Luta Livre trabalhem juntos, talvez na mesma federação, preservando suas identidades respectivas.
Vincent: Formando a Próxima Geração
Vincent se projeta no futuro esportivo e educacional. Ele vê um futuro muito brilhante quando observa o trabalho notável feito pelas academias com jovens. Para ele, desenvolver campeões requer primeiro treinamento de qualidade desde a infância.
Ele também enfatiza a formação dos futuros professores, que serão os melhores representantes da disciplina. A aposta é alta: o que esses novos professores vão transmitir?
Sua ambição: fazer do jiu-jitsu brasileiro o esporte de combate mais praticado no mundo.
Ele termina com uma nota filosófica emprestada do jiu-jitsu: uma pessoa menor pode vencer uma maior. Da mesma forma, uma organização menor pode vencer uma maior se trabalhar inteligentemente.
Conclusão: Crescer Sem Se Comprometer
Esta segunda parte do podcast On the Road aborda diretamente tópicos divisivos: ruptura institucional, identidade de disciplinas, críticas públicas, visão de futuro.
O que emerge: duas visões que se complementam em vez de se oporem. Nicolas e Vincent compartilham o mesmo objetivo — fazer crescer o grappling francês sem comprometer o que o torna único.
O grappling francês está em uma encruzilhada. O que segue dependerá da capacidade de todos de continuar dialogando, no tatame e fora dele.
➡️ Ouça o episódio completo (Parte 2/2) • ➡️ Leia Parte 1: “O Grappling Francês se Torna Adulto”
